Seleção de curta-metragens produzidos por realizadores negros compõe Curta Mostra Especial, a única temática do festival

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Apresentar um panorama sobre a produção de curta-metragens feita por realizadores negros no século 21 é a intenção da Curta Mostra Especial – Cinema Negro Brasil Contemporâneo, que integra a programação da 16ª Goiânia Mostra Curtas. Nos dias 4, 8 e 9 de outubro, o público poderá conferir filmes que ilustram como as mudanças sociais, que vem acontecendo nos últimos anos, têm propiciado o surgimento de uma nova geração de cineastas.

A Curta Mostra Especial é temática e não-competitiva – diferente das demais que compõem o festival. Por ser única, carrega o objetivo de criar um espaço de debate e reflexão acerca do tema, escolhido anualmente pela diretora da Goiânia Mostra Curtas, Maria Abdalla. Segundo ela, o espaço “propõe um encontro entre expoentes do início do cinema negro no País e representantes da nova geração, que está cada vez mais forte. O protagonismo do negro transcende o cinema e precisa ser celebrado diariamente, em todas as esferas”.

Grandes nomes representativos da temática serão homenageados na Curta Mostra Especial: Zózimo Bulbul (in memoriam), considerado um dos maiores expoentes da cinematografia afro-brasileira dos anos 60 e 70, Adelia Sampaio, primeira realizadora negra brasileira em longa-metragem, famosa por seus trabalhos nos anos 80, e as atrizes Ruth de Souza e Chica Xavier, intituladas Damas Negras.

A curadoria da mostra é assinada pela produtora e cineasta Flávia Cândida, com produção do, também cineasta, Clementino Júnior, que soma experiências de docência audiovisual e diretor do Cineclube Atlântico Negro, no Rio de Janeiro.

Na agenda, além da exibição de filmes, haverá debate com participação de Clementino Júnior; a ex-secretária municipal de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Ana Rita de Castro; a idealizadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), Janaína Oliveira; o cineasta premiado internacionalmente Jefferson Dê; e a cineasta, diretora e fundadora da Afroflix de apenas 24 anos, Yasmin Thayná.

Representatividade e espaço

O Brasil abriga a maior população negra fora do continente africano, de acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores. A contribuição dos afrodescendentes foi fundamental para a formatação da cultura nacional, contudo, é preciso lutar por mais espaço e representatividade no setor, conforme frisa a curadora da Curta Mostra Especial.

“Mais do que lutar por espaço ao sol, é preciso ter registro e memória do povo negro e ser valorizado no seu tempo. O acesso ao audiovisual foi facilitado com a inclusão digital e há mais escolas de cinema, públicas e particulares, revelando jovens talentos. Mas faltam políticas públicas e afirmativas para propiciar o preparo, não apenas, dar o acesso”.

Convidado para participar do debate e produtor da Curta Mostra Especial, o cineasta Clementino Júnior contou que a temática escolhida neste ano pela 16ª Goiânia Mostra Curtas foi uma grata surpresa.  “A produção de cinema no Brasil é diversa e nós, negros, fazemos parte dessa construção. Cada vez mais, vemos de forma nítida uma presença maior negra, no papel de roteiristas, diretores e atores. Contudo, infelizmente, em muitos outros festivais, programas e materiais audiovisuais adquiridos por veículos não vemos essa representação negra. Por isso, é preciso questionar, entender e dizer ‘sim, estamos aqui’”.

No conteúdo da Mostra Especial, a curadora relata que buscou um recorte variado das produções assinadas por cineastas negros, retratando diferentes regiões do País, com uma diversidade temática e fora dos estereótipos.  “A programação foi fruto de uma pesquisa, do que vemos vendo ao longo dos últimos anos. Não são filmes de militância, mas de cunho autoral, com uma pegada artística e menos panfletária”.

Além da Mostra Especial, a 16ª Goiânia Mostra Curtas apresenta outras quatro mostras: Curta Mostra Brasil, Curta Mostra Goiás, Curta Mostra Municípios e 15ª Mostrinha – dedicada ao público infantil. A programação do evento vai além da exibição de filmes, com oferecimento de palestras, seminário, laboratório, painel, oficinas, encontros e lançamentos literários. Toda a agenda é gratuita. Neste ano, o festival conta com patrocínio da Oi e Rodonaves Transportes; incentivo da Lei Goyazes, Fundo de Arte e Cultura de Goiás, Seduce Goiás, Governo de Goiás e Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia; e apoio da Oi Futuro, Unimed Goiânia e Sebrae Goiás.

Mini bio

Flávia Cândida é produtora cultural, cineasta, curadora audiovisual e analista de projetos, formada no curso de cinema da Universidade Federal Fluminense, por qual dirigiu o curta-metragem O Metro Quadrado, vencedor, dentre outros prêmios, do Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília em 2002. Como curadora e selecionadora, colabora em vários festivais como o Curta Cinema – Festival Internacional de Curta-metragens do Rio de Janeiro, a Première Brasil do Festival do Rio, Festival Internacional de Curtas de São Paulo e laboratórios como BR Lab, Plataforma Lab, Icumam Lab e o Laboratório de Projetos do Curta Cinema.

Clementino Júnior

Clementino Junior é mestre em educação, professor de audiovisual, cineclubista e cineasta com 15 filmes finalizados. Estreou como animador em 2000 com o curta-metragem Sillis, mas tem como destaque seus mais recentes e premiados documentários, Jurema, feli(Z)cidade, e o longa-metragem Anjo de Chocolate. Comanda desde setembro de 2008 o Cineclube Atlântico Negro, com foco especial no cinema da diáspora africana, e foi vice-presidente da ABD Nacional e presidente da ABDeC-RJ. (Lilian Cury)

Serviço

16ª Goiânia Mostra Curtas

De 4 a 9 de outubro – Curta Mostra Especial: dias 4, 8 e 9.

Teatro Goiânia.

Entrada franca.

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