Apenas compartilho histórias, e projeto ao protagonismo, pessoas e histórias que seja na vida ou na ficção, estão em papeis secundários. Isso já é uma realização transformadora a qual denomino de Teatro do Pertencimento.

Alexandre Lino sobre os personagens os quais interpreta

Ele é ator, documentarista, graduado em cinema com especialização em teatro. Ainda, é fundador da Documental Cia e também da Cineteatro Produções. Com diversas indicações e laureado em importantes premiações relativas às artes, Alexandre Lino, ainda ministra o curso Artista Empreendedor, está escrevendo um livro sobre este tema e produziu diversos filmes.

Na televisão, tem vários trabalhos. Foi ator, produtor e diretor de arte da Rede Record. Fez recentemente um líder evangélico em Sob Pressão, e atualmente é o porteiro Gilmar, da série A Cara Do Pai, ambos trabalhos realizados na TV Globo.

No teatro, Alexandre Lino apresenta um monólogo, em que o porteiro Waldisney assume a reunião do condomínio, diante do não comparecimento do síndico. A peça que estreou no início deste mês está em cartaz no Teatro Jardim Sul, em São Paulo, com texto e direção do cineasta Paulo Fontenelle.

Para falar deste e de outros trabalhos de Alexandre Lino, conversamos com ele, neste 2 Dedos de Prosa. Confira!

2 Dedos de Prosa – O seu interesse pelas artes cênicas começou na igreja. Como aconteceu?

Alexandre Lino – Sou natural de Gravatá – PE no agreste Pernambucano. Minha cidade até hoje não tem Teatro. Talvez seja essa uma de minhas missões com minha terra natal. A igreja e a escola eram os lugares de contato com a Arte. Foi na Igreja dos Mórmons que iniciei as minhas experiências mais intensas. Lá era um terreno de encontro de culturas (por conta das diferentes nacionalidades) e assim me senti mais à vontade para experimentar. Não me tornei um membro da Igreja, mas sou grato até hoje pelo convite libertador.

2DP – Você é multi dinâmico, atua em várias frentes artísticas: teatro, cinema, televisão. Da produção, a direção e atuação. Em qual você se sente mais realizado?

AL – Fazendo Arte. Onde eu estiver nesse lugar, eu estarei realizado. Mas o Teatro é a minha casa, meu alimento e minha libertação. Vivo e morrerei fazendo o que ele pedir.

2DP – Aulas e cursos sobre empreendedorismo no meio cultural, também integram a sua rotina. Como surgiu este projeto?

AL – Esse foi um método que criei depois de muitas pesquisas e experiências em minha produtora CINETEATRO PRODUÇÕES. Fiz especialização em Artes Cênicas e leciono em cursos de pós-graduação. Não consigo ministrar com regularidade por conta da agenda, mas tenho um prazer imenso quando posso assumir turmas ou dar meu workshop com grupos fechados pelo Brasil.

Sair do campo das idéias e realizar um projeto. Com ou sem recursos. Essa iniciativa, esse passo parece simples, mas não é. Estou finalizando meu livro intitulado “Artista Empreendedor”, que fala exatamente sobre esse percurso. Devo isso ao Roberto Bomtempo e ao velho Abujamra que o ouvi dizer repetidas vezes: “Não pensem, façam. Qualquer mente medíocre poder ter uma boa ideia. Realizá-la é que é genial ”.

Teatro é a minha casa, meu alimento e minha libertação. Vivo e morrerei fazendo o que ele pedir.

2DP – Em seu trabalho, na maioria das vezes, você dá vida a personagens de nosso cotidiano, e que de certa forma, passam despercebidos em nossa rotina. Bem como, retrata também as questões do nordestino migrante.

AL – Eu nomino minha arte como Teatro do Pertencimento. Também sou documentarista de formação e esse lugar do compromisso com o real me fascina. Trago sempre falas que estão no universo secundário, coadjuvante, periférico e as coloco no centro como “heróis” protagonistas. Meus trabalhos abandonam os tratados acadêmicos sobre os temas e fazem uma espécie de transcrição de discursos sociais de pessoas que normalmente não tem preferência de escuta. Com O Porteiro (2017) completo uma trilogia iniciada em Domésticas (2012) e que passa pelo projeto trasmidiático Nordestinos (2015) onde essas vozes eram de migrantes do Nordeste do Brasil que saíram de suas cidades em busca de realização nas cidades dos sonhos: Rio de Janeiro e São Paulo. Esse é o trabalho da Documental Cia.

Alexandre Lino, como Waldisney, na peça O Porteiro (crédito: Janderson Pires)

2DP – Como bem disse, O Porteiro integra uma trilogia. Como termina esta sequência?

AL – “É uma coisa infinita que não tem fim”. DOMÉSTICAS (2012). Não me vejo realizando Arte de outra forma. Foi um encontro absoluto entre desejo, necessidade e pertinência. Ano passado idealizei e produzi CHICA DA SILVA – O Musical e o lugar era o mesmo. Isso nos resultou em muitas indicações aos principais prêmios e consagrou a atriz Vilma Melo (Chica da Silva) com o Prêmio Shell e sendo a primeira atriz negra a receber a estatueta em 29 anos da premiação. A realidade sempre vai esfregar na nossa cara que temos muito a aprender e aonde não conseguimos chegar.

2DP – Você tem tido vários reconhecimentos e premiações. O monólogo O Porteiro, atualmente em cartaz, está entre as melhores comédias, pela crítica especializada de 2017. E você concorre ao Prêmio do Humor do Fábio Porchat 2018, na categoria performance, nesta atuação.

AL – Esse Prêmio do Humor criado por Fábio Porchat é da ordem do extraordinário para os dias de hoje. Veio da necessidade dele em minimizar a forma como os artistas que fazem trajetória como o humor são menos reverenciados pela crítica especializada e premiações. Isso acontece na TV e no Cinema também. Para mim, ser indicado a esse Prêmio e com esse personagem tem um lugar ainda mais especial. Evidencia quem eu desejo que seja visto: os porteiros. Quero falar mais deles. Isso aconteceu comigo também em Domésticas quando fui indicado ao Prêmio Ítalo Rossi.

2DP – O espetáculo foi montado a partir de histórias coletadas através de entrevistas, de vários porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal em busca da realização de seus sonhos no Rio de Janeiro. Qual delas mais te impressionou?

AL – A de um porteiro com mais de 40 anos de profissão que nos relatou que um senhor que ainda mora no prédio que trabalha (funcionário público) nunca tinha olhado em seus olhos em todos esses anos de convivência e tão pouco costumava responder um bom dia ou algo do tipo. Só falava o estritamente necessário e o ignorava. O mesmo senhor perdeu sua esposa, os filhos foram moram no exterior e ele ficou muito doente e sozinho. Um dia fazendo o seu trabalho rotineiro ouviu gritos no apartamento do tal senhor. Abriu a porta de serviço com chave extra e encontrou o senhor na cama todo sujo. Ele o levantou e deu-lhe um banho e colocou-o na cama limpo novamente. Disse (muito emocionado) que foi a primeira vez que eles se olharam nos olhos de verdade em 40 anos.

2DP – A peça é considerada uma experiência interativa. Como foi concebido este formato?

AL – Eu e o diretor/autor Paulo Fontenelle decidimos juntos que esse seria o formato. Uma grande reunião de condomínio que na ausência do síndico seria presidida pelo porteiro Waldisney e na ausência dos moradores o público faria a honra de “interpretá-los”. Isso nos empolgou desde o primeiro momento e estamos muito satisfeitos com todo o retorno até aqui.

Trago sempre falas que estão no universo secundário, coadjuvante, periférico e as coloco no centro como “heróis” protagonistas. Meus trabalhos abandonam os tratados acadêmicos sobre os temas e fazem uma espécie de transcrição de discursos sociais de pessoas que normalmente não tem preferência de escuta.

2DP – Não é a primeira vez que interpreta um porteiro. Tem algum personagem que tem um carinho maior?

AL – Personagens são como filhos. Não tem como eleger. Todos têm sua importância pela troca e aprendizado que adquirimos com a relação que criamos ao longo de suas existências.

2DP – Atualmente, você também interpreta um outro porteiro, o Gilmar, da série A Cara do Pai, na TV Globo.  O que tem em comum com o da peça O Porteiro.

AL – O carisma, a humildade e a vontade em ajudar o próximo. Gilmar, de A Cara do Pai, Erivaldo, de Apaixonados – O Filme e Waldisney de O Porteiro são exemplos da humanidade que estamos perdendo.

2DP – Quais cidades a peça já passou? E quando será apresentada em Goiânia?

AL – Estreamos no Rio de Janeiro e já passamos por Bangu, São José dos Campos, Santo André, São Paulo e seguimos com agenda que já tem mais 20 novas cidades que inclui Brasília em abril. Estamos quase chegando em Goiânia. (RS) Queremos muito nos apresentar nessa cidade que gosto muito.