Nos últimos dias, a procura por informações  e vacinas relacionadas a Influenza A (H1N1)  se intensificou em Goiás.  A gripe H1N1 chegou mais cedo no estado, e outros tipos de gripe mais comuns no inverno, já começaram no verão. A população que acompanha através do noticiários, casos de suspeitas de infecção pela doença e alguns de até morte, está preocupada.

Para entender mais sobre esta doença, e como prevenir uma possível infecção, conversamos com a médica infectologista e coordenadora de vacinas do Laboratório Padrão, Dra. Priscila Saleme.

Doutora Priscila Saleme (crédito: Leo Lara/Árvore de Comunicação)

 

2 Dedos de Prosa – O que é Influenza A – H1N1?

Dra. Priscila Saleme – O vírus influenza, responsável pelos quadros de gripe, é capaz de causar doenças em animais, como porcos e aves, e em humanos. Dentre aqueles responsáveis por causar doença em humanos, eles podem ser divididos em 3 principais grupos: A, B e C.

  • Influenza A 2 subtipos importantes para humanos A(H1N1) e A(H3N2), capazes de causar quadros clínicos moderados a graves;
  • Influenza B  classificados como de linhagem Victoria e linhagem Yamagata; responsáveis por casos mais leves;
  • Influenza C  causa infecções leves e raras. Pouco relevante clinicamente.

Assim, o H1N1 é apenas um dos tipos de vírus influenza e é um dos principais responsáveis pelos casos de gripe até o momento neste ano no Brasil. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, até o momento, em 2018, no Brasil foram detectados 161 casos de influenza, sendo 53 deles (32,9%) por influenza A(H1N1), 23 (14,3%) influenza A não subtipado, 41 (25,5%) influenza B e 44 (27,3%) influenza A(H3N2).

2DP – Qual a diferença entre o vírus da H1N1, e os outros?

Dra.PS –   A diferença entre o H1N1 e os demais vírus do grupo A está nas proteínas localizadas na superfície deles, as hemaglutininas(H) e as neuroaminidases(N), responsáveis, respectivamente, por auxiliar na capacidade do vírus se ligar às células humanas e na penetração dentro dessas células, respectivamente. Como essas proteínas são também classificadas em números, H1, H2,H3 e N1 e N2, daí surgem as classificações H1N1 e H3N2, conforme o tipo de proteínas presente em cada subtipo.

2DP Qual a forma de contágio da H1N1? E quais são os sintomas da doença?

Dra.PS –   A transmissão do vírus influenza ocorre de pessoa a pessoa através de gotículas eliminadas pelas pessoas infectadas durante a tosse ou o espirro. Além disso, o contágio também pode ocorrer quando uma pessoa saudável tem contato com secreções respiratórias de pessoas infectadas e posteriormente, sem a higiene adequada das mãos, leva as mesmas aos olhos, boca ou nariz.

A síndrome gripal, ou gripe, se caracteriza pelo aparecimento súbito de febre, dor de cabeça, dores musculares, tosse, dor de garganta e fadiga. Nos casos mais graves, observa-se ainda dificuldade respiratória, cursando com o quadro chamado de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

2DP Explique a importância da vacinação? Como ela acontece? Todos devem vacinar? Existe a garantia de 100% de imunização?

Dra.PS –  A vacinação é uma das estratégias mais eficazes de proteção contra os quadros mais graves causados pelo vírus influenza. Através da vacina, há um estímulo para o organismo da pessoa vacinada produzir anticorpos protetores contra aquelas cepas contempladas na vacina. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomenda a vacinação de todas as pessoas que desejem se vacinar. Não existe garantia de 100%, mas a vacina é considerada uma das estratégias de prevenção mais efetivas para os casos de influenza grave e suas complicações.

2DP Como o Laboratório Padrão tem realizado a vacinação?

Dra.PS – O Laboratório Padrão já oferece à população a possibilidade de todos aqueles que desejem se vacinar, desde que não apresentem história de alergia grave a algum componente das vacinas, optarem entre 2 tipos de vacina contra a gripe. Uma, denominada trivalente, protege contra 3 tipos de cepas e outra, denominada tetravalente, com proteção contra 1 tipo a mais de cepa.

2DP Quais as formas de prevenção e cuidados a serem tomados para evitar o contágio?

Dra.PS – Conforme a transmissão ocorre principalmente através do contato com partículas eliminadas por pessoas infectadas, através de mãos e objetos contaminados por secreções, recomenda-se, além da vacinação, medidas de higiene preconizadas pelo Ministério da Saúde. Dentre estas, citam-se a lavagem das mãos com água e sabão ou com álcool gel, principalmente depois de tossir ou espirrar; evitar tocar os olhos, nariz ou boca após contato com superfícies potencialmente contaminadas por secreções respiratórias de pessoas doentes como corrimãos, bancos, maçanetas; evitar contato muito próximo com pessoas doentes; usar lenços de papéis descartáveis para cobrir a boca sempre que tossir ou espirrar; caso não tenha lenços descartáveis, procure usar a parte interna do braço para tossir ou espirrar; evitar compartilhar alimentos, talheres e outros objetos de uso pessoal. Recomendam-se ainda hábitos saudáveis, como alimentação balanceada, ingestão de líquidos e atividade física.

2DP Caso alguém tenha contato com quem tem a doença, como deve proceder?

Dra.PS – É recomendável que, diante de qualquer sintoma, que essa pessoa procure por uma unidade de saúde para ser melhor avaliada e orientada.

2DP Sobre a grande procura pela vacina na rede privada, e o medo que tem assolado as pessoas em Goiânia, é situação para grandes preocupações?

Dra.PS – Não. Até o momento, de acordo com os dados da Secretaria de Saúde, foram confirmados 423 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave divulgados em Goiás, sendo que apenas 70 são decorrentes do vírus influenza e todos os demais estão em investigação ou foram atribuídos a outros agentes infecciosos. A vacina é uma das estratégias mais eficientes de prevenção de casos graves e não há previsão até o momento de falta de vacina.

2DP No início deste ano, durante o inverno no hemisfério norte, aconteceu um surto de gripe nos EUA. É o mesmo vírus que acomete nosso país? Quais são os cuidados a serem tomados para quem visita os Estados Unidos? E a vacina tomada no Brasil, tem a mesma eficácia lá?

Dra.PS – A maioria dos casos que aconteceram nos EUA foram secundários ao vírus H3N2. Até o momento, no Brasil, a maioria dos casos confirmados de influenza estão sendo causados pelo tipo H1N1. No entanto, em segundo lugar temos casos relacionados ao H3N2. Essa distribuição apresenta variação ao longo de todo o território nacional, sendo observado que: na região Norte, predomina Influenza B; na região Nordeste e Centro-Oeste, o Influenza AH1N1; nas regiões Sul e Sudeste, que apresentam a maior circulação de vírus Influenza no momento, circula mais frequentemente o vírus AH3N2. Até o momento não há informações oficiais de que esse vírus tenha sofrido mutação.

No entanto, a situação epidemiológica da doença nos Estados Unidos pode servir como alerta para um possível aumento da circulação do vírus influenza A (H3N2) nos demais países das Américas, inclusive o Brasil. Assim, a vacinação e a adoção de medidas de etiqueta respiratória são estratégias essenciais.

Conforme o maior número de casos no hemisfério norte ocorre durante o inverno, no momento, já se observa uma redução importante da circulação do vírus influenza nos EUA. É interessante que, duas semanas antes de viajar, a pessoa possa tomar a vacina contra a gripe como medida de prevenção. Apesar de não podermos quantificar a eficácia neste caso, é preferível ter alguma proteção do que não ter nenhuma.