(Patricia Finotti)

Considerado referência na atualidade no que tange ao tema paternidade, o jornalista, escritor e palestrante Marcos Piangers ministrou duas palestras, em Goiânia, no final de novembro. Sempre simpático e alegre, como em seus diversos vídeos, que são grande sucesso nas redes sociais, e que encantam muitas mães e pais, através de seu viés familiar e que evidência a importância do papel do pai na criação dos filhos, ele falou conosco sobre família, novas tecnologias e seus novos projetos.

Confira trechos de nosso 2 Dedos de Prosa com Marcos Piangers!

porque homens que cuidam, vivem mais que homens que não tem filhos ou não cuidam. Homens que cuidam, tem níveis de hormônio masculino equilibrado. São menos competitivo, são menos violentos. E são mais felizes. E aí eu digo por experiência própria.

Patricia Finotti – O papel do pai está mudando na sociedade atual. Os homens estão mais presentes na criação de seus filhos, dividindo tarefas com suas companheiras. Ainda, sim, existem pais machistas que vivem o oposto desta realidade. Quais consequências que a omissão na criação dos filhos, pode acarretar para uma criança?

Marcos Piangers – Bom, a gente sabe que a mãe tem uma ligação, e até uma cobrança maior na participação da criação do filho. A gente presume que é uma ligação fisiológica e imediata. É a mãe que engravida, é a mãe que gesta, é a mãe que amamenta. A gente sabe que estas são características que o homem realmente não consegue emular. Mas, todo o resto, como em algumas sociedades, nos mostram isto, que historicamente é possível verificar  construções sociais matriarcais em que o homem participa muito na criação de seu filho e é possível imaginar que o homem tem condição de cuidar de seu filho e de desenvolver sensibilidades nesse cuidado em todas as áreas.

Mas, socialmente, a gente estipulou na nossa construção social, que a mulher só é realizada se puder ter filho. E o homem só é realizado, se puder ganhar dinheiro e for o provedor da casa.

A verdade é que a gente tem uma transformação aí nessa construção, no momento em que a mulher trabalha e o homem desenvolve essa capacidade e vontade de estar mais perto da família.

Muitos homens tem despertado essa felicidade que é estar mais perto dos filhos e da esposa, e dos afetos. Portanto, a gente tem aí um desafio, este status quo, e é muito bonito ver que muitos homens tem participado e descoberto um prazer nessa criação dos filhos e entendido que a responsabilidade de criar filhos não é apenas da mãe, mas, do casal.

O homem que não participa, vai ter o impacto fundamental na vida do filho.

As meninas sem pai, terem uma propensão de começar uma vida sexual mais cedo; a terem um relacionamento de forma carente; e a engravidarem antes, repetindo muitas vezes a história da própria mãe. Uma mãe solo, aumenta a probabilidade de ter uma filha que engravida e é abandonada.

Da mesma forma, a falta de um pai, na vida de um garoto, faz com que ele busque inspirações masculinas em outros exemplos, que muitas vezes, não são os melhores. E o que as pesquisas mostram, é que a probabilidade aumenta dessa criança de se envolver com crime e delinquência, porque não teve uma figura de autoridade dentro de casa, e acaba desafiando as autoridades fora de casa.

Então, uma família estruturada, é fundamental para que uma criança seja bem sucedida. E eu digo bem sucedida, é com elevada alta autoestima, bom desempenho social escolar, bom preparo para a vida profissional.

Portanto, um pai que abandona, também tem um impacto negativo brutal na vida da mãe, na vida do filho. Mas, o pai que participa tem um impacto positivo, fantástico na vida da mãe, que vai poder ter uma média salarial maior; que vai aceitar promoções; que pode viajar a trabalho; que pode buscar empregos melhores. Na vida da criança, que vai ser muito mais bem sucedida; com autoestima elevada; bom desempenho escolar… E na sua própria vida, porque homens que cuidam, vivem mais que homens que não tem filhos ou não cuidam. Homens que cuidam, tem níveis de hormônio masculino equilibrado. São menos competitivo, são menos violentos. E são mais felizes. E aí eu digo por experiência própria.

P.F.-  Muitas famílias tem relegado a educação dos filhos a terceiros: seja para as babás, ou para as escolas. Para alguns, o motivo é a dedicação dos pais ao trabalho, em que nas horas vagas estão cansados, e não conseguem dar a atenção necessária aos filhos. Como você vê essa rotina familiar?

M.P – O que eu acho é que, o que acontece hoje, é uma época de desconexão, não só com os nossos filhos. A nossa sociedade hoje, é uma sociedade desconectada com elas mesmas. Estão desconectadas com os outros. E estão desconectadas com a natureza.

Esses fatores são fundamentais para explicar a sociedade do cansaço, com 98% dos brasileiros se declarando cansados; com o burnout entrando para a lista mundial de doenças na OMS; com a depressão sendo o principal motivo de afastamento do trabalho em 2020. Com o aumento de casos de suicídio. Com jovens antissociais, deprimidos e sem habilidades para lidar com as mudanças do mundo. Jovens com dificuldade tremenda de sociabilização. Jovens solitários.

Eu acho que a única forma de resolver essa questão é falando a respeito e utilizando ferramentas para que a gente se reconecte. Por exemplo, aprendi com as minhas filhas que se eu estou com elas eu não devo estar com o celular, e que ele deve estar no modo avião. O meu celular há mais de dez anos não faz barulhos. Não tem notificação. Dessa forma, o celular não fura fila dos meus momentos especiais, almoços, jantares, passeios em família.

Dessa forma, eu mostro também para a minha família e para mim mesmo, com atitudes que os meus afetos, os meus amores, são a minha prioridade e não aquilo que está acontecendo na internet.

Então, são algumas atitudes, alguns exercícios diários para que a gente se reconecte. Que a gente converse mais. Para que a gente se reconecte com a gente, com os outros, e também com a natureza e com mundo a nosso redor.

Porque esse é um dos motivos para a gente estar em uma crise ambiental, certo? A gente não tem nenhuma sensação de fazer parte desse mundo. A gente está desconectado da natureza, e o primeiro passo é se conectar com a natureza e com as pessoas que estão ao nosso redor.

As tecnologias tem um impacto muito negativo na formação das crianças. Pode ser bem usado? Pode! Mas, eu gostaria muito de ressaltar que 90%, talvez mais, 95% do uso tecnológico por crianças é prejudicial.

P.F. – O que você sugere para que a relação entre pais e filhos seja melhor?

M.P. – Primeiro, entendendo que uma família só é feliz, se todos os membros forem felizes. É importante que a criança seja feliz, é! Mas, também é importante que a mãe seja feliz, e que o pai seja feliz. E para isso é necessário uma constante investigação, conversa, quase uma terapia em família, constante, diária, em que a conexão se dá por conversa, por palavras de afeto, por contato físico, a conexão se dá por gentilezas.

Então, dessa forma você vai se reconectando com o seu filho e entendendo que o celular não é babá; tablet não é babá; a televisão não é babá; a babá não é babá… a escola não tem a responsabilidade de cuidar de seu filho. Você tem a responsabilidade em cuidar de seu filho! Organizar o seu tempo, para cada vez mais ter mais tempo de quantidade, que é construir a garantia de ter tempo de qualidade com seu filho também.

Mas, antes você precisa ter mais tempo de quantidade, e isso significa muitas vezes dormir um pouquinho menos; sair menos com seus amigos; beber menos cerveja em um happy hour; trabalhar um pouquinho menos.

Ou pelo menos ser mais assertivo e focado no seu trabalho, para não precisar fazer reunião de três horas, para não levar trabalho para casa. Ou se levar trabalho para casa, fazer isso enquanto os filhos dormem, em uma espécie de terceiro turno, como tantas vezes eu fiz. Mas, o mais importante é entender que o tempo de quantidade é fundamental para conquistar o tão falado tempo de qualidade.

O que eu acho é que, o que acontece hoje, é uma época de desconexão, não só com os nossos filhos. A nossa sociedade hoje, é uma sociedade desconectada com elas mesmas.

P.F. – Cada vez mais crianças e adolescentes tem passado grande parte do dia utilizando de aparelhos eletrônicos, seja, jogando ou navegando na Internet. Qual a sua opinião em relação a esse uso, que algumas vezes é excessivo?

M.P. – Eu trago aqui, dois exemplos de pessoas que eu acho que conhecem um pouco mais de tecnologia do que eu.

O primeiro é Steve Jobs, fundador da Apple. Quando ele lançou o IPAD, ele disse: ‘esse é um aparelho maravilhoso!’ Mas, quando o repórter do New York Times veio perguntar: ‘se é maravilhoso, estão, os seus filhos deve adorar o iPad?!’ O Steve Jobs respondeu: ‘Não! Os meus filhos nunca utilizaram um Iid. Lá em casa a gente controla o uso tecnológico.’

E a segunda pessoa que eu gostaria de trazer, é Bill Gates, que quando perguntado, disse: ‘Minhas filhas terão computadores, mas, antes terão livros. Sem livros, é impossível escrevermos a nossa própria história.’

Quando eu trago essas duas figuras, que são fundamentais para a criação dos aparelhos que nos rodeiam, eu quero dizer: Você acha que entende mais, ou menos de tecnologia do que o Steve Jobs ou o Bill Gates?!?

Tenho convicção, que a maioria dos pais, entende menos de tecnologia do que eles. E portanto, deveriam seguir seus exemplos. O que eles estão dizendo, é que tecnologia é para adultos. Tecnologia é para quem desenvolveu a capacidade humana de usas sistemas e ferramentas digitais para ser mais produtivo, assertivo. Para fazer bom uso, para utilizar de forma inteligente as ferramentas tecnológicas que nos rodeiam.

Então, eu não acredito que nenhuma criança precise de iPad ou celular. Eu acredito na Sociedade Brasileira de Pediatria, que por conta de várias pesquisas, chegou à conclusão que antes dos dois anos, nenhuma criança deve ser exposta a nenhum tipo de tela. Isso é muito forte. Porque, menos de dois anos, as telas tem um impacto na cognição, no aprendizado, e no desenvolvimentos dessas crianças.

Mas, mesmo assim, a gente deixa os nossos filhos de meses, olhando o celular, sem perceber que isso atrapalha o desenvolvimento e a cognição. E nos traz um problema lá na frente. Um problema de aprendizado, de relacionamento humano, de relacionamento afetivo. De desenvolver paciência, de saber lidar com frustração. De saber conversar e saber expressar as suas emoções. De desenvolver comunicação e empatia, de entender a importância de esperar e respeitar o próximo.

As tecnologias tem um impacto muito negativo na formação das crianças. Pode ser bem usado? Pode! Mas, eu gostaria muito de ressaltar que 90%, talvez mais, 95% do uso tecnológico por crianças é prejudicial.

P.F. – Em suas entrevistas, você diz que não esperava que seus livros vendessem tanto e fizessem tanto sucesso. Como é chegar a esse reconhecimento nacional e inspirar outros homens?

M.P. – Quando lancei o O Papai é Pop, em 2015, a minha expectativa era apenas de fotografar o momento que minha família estava. A minha filha mais velha, tinha oito anos, e a minha filha mais nova, tinha um para dois anos, e aquelas histórias era uma espécie de guardar tudo o que eu tinha aprendido com elas até então.

Depois do sucesso do livro, a minha vida se transformou. Me colocaram em uma posição de referência familiar. Em alguns momentos fiquei receoso com essa … notoriedade, mas, depois percebi… que a minha missão é me informar o máximo possível para ajudar todas essas famílias que precisam de auxílio na criação dos seus filhos.

Hoje, me enxergo como alguém que inspira pais e mães a serem o melhor que podem ser. E me esforço para, baseado em pesquisas, opinião de profissionais, e informações de qualidade, contribuir para casamentos mais estruturados, pais e mães mais informados e crianças crescendo mais completas.

P.F. – Quais são os seus projetos para o próximo ano? Existe a possibilidade de seus livros se tornarem filmes?

M.P. – Ahhh… Você já está sabendo!!!! Ano passado a gente vendeu os direitos do O Papai é Pop para ser transformado em um filme, um longa-metragem, que está neste momento em desenvolvimento.

O Papai é Pop2 e A Mamãe é Rock, que é o livro que a minha esposa escreveu, irão se transformar em um roteiro e depois em um filme, que deve chegar aos cinemas brasileiros em 2020. Ou no mais tardar em 2021.

A nossa expectativa é que esse discurso de aproximar pais, homens dos seus filhos, possa chegar em mais pessoas, seja com livros, palestras, documentários que eu também estou produzindo, ou com produções cinematográficas.

No final das contas, o nosso objetivo é transformar o Brasil num país mais cuidadoso com as crianças.