Atualmente, dois estados brasileiros enfrentam surtos de sarampo: Roraima e Amazonas. Além de Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul terem casos confirmados da doença.

Em relação a poliomielite no Brasil, não há novos casos, contudo, segundo o Ministério da Saúde 312 municípios estão com baixa cobertura. E de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, os casos da doença aumentaram em outros países.

Mediante esta conjuntura, uma campanha nacional de vacinação acontece este mês, iniciando no dia 6, com término no dia 31, organizada pelo Ministério da Saúde.

A fim de entender  mais sobre o sarampo e o poliomielite, e a necessidade de vacinação, conversamos com a médica infectologista, responsável pelo setor de vacinas do Laboratório Padrão, Dra. Priscila Saleme.

Patricia Finotti – Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações foram constatados em 2017, os índices mais baixos de imunização no Brasil, em relação a diversas doenças. Qual o motivo desta realidade?

Dra. Priscila Saleme – De acordo com informações publicadas, foram detectados problemas na transmissão de dados das secretarias de saúde dos municípios para o ministério da saúde. Sendo assim, os dados divulgados parecem não ser ainda definitivos e precisamos aguardar maiores informações sobre isso. No entanto, independentemente da acurácia desses números divulgados, a situação de coberturas inferiores à meta preconizada é igualmente alarmante. Isso pode ser explicado pela falta de consciência da população sobre a importância da vacinação como estratégia fundamental para a erradicação de muitas doenças graves imunopreveníveis em nosso país. Assim, como muitas das pessoas nunca viram doenças graves a exemplo da poliomielite, podem não compreender o risco de essa doença voltar a acontecer em nosso país.

P.F. – Nosso país recebeu há dois anos da Organização Pan-Americana de Saúde o certificado de eliminação do sarampo. E agora corre o risco de perder. O que se deve essa situação?

P.S. – Nos últimos tempos, após a chegada de imigrantes venezuelanos ao Brasil, foram detectados casos novos de sarampo entre brasileiros. Após análise dos casos, houve divulgação de que o vírus causador dessa doença era proveniente de fora do nosso país.  Assim, é provável que, com a chegada de pessoas doentes ao Brasil, diante de muitos brasileiros não adequadamente vacinados, houve uma situação propícia para que um surto ocorresse localmente.

como muitas das pessoas nunca viram doenças graves a exemplo da poliomielite, podem não compreender o risco de essa doença voltar a acontecer em nosso país.

P.F. – Quais são os sintomas da poliomielite e do sarampo? Ambas as doenças são transmitidos por vírus. Como acontece essa transmissão do vírus? Essas doenças têm cura?

P.S. – A poliomielite ou paralisia infantil é uma doença viral cuja manifestação pode variar de um quadro sem sintomas até casos em que ocorre uma paralisia de membros, insuficiência respiratória e até evoluir para o óbito. A transmissão do poliovírus pode ocorrer através da ingestão de alimentos e água contaminados ou através de gotículas de secreção de uma pessoa portadora do vírus.

Já o sarampo é uma doença viral grave em que ocorre febre, tosse seca, manchas vermelhas na pele, tosse, coriza e conjuntivite. A doença pode evoluir com maior gravidade entre crianças desnutridas e menores de 1 ano de vida. A transmissão ocorre através das gotículas respiratórias eliminadas durante a fala, tosse e espirro.

P.F. – Quais os cuidados necessários para evitar um surto dessas doenças? Quem precisa imunizar?

P.S. – A principal estratégia de prevenção contra essas doenças é a vacinação. Devem se vacinar contra a poliomielite todas as crianças menores de 5 anos, conforme o calendário de rotina. Já adolescente e adultos nunca vacinados contra a poliomielite e que planejam viajar para regiões em que há casos da doença devem ser considerados para vacinação.

Já em relação ao sarampo, encontra-se disponível a vacina tríplice viral, a qual protege contra os vírus sarampo, caxumba e rubéola, a qual pode ser administrada a todas as pessoas a partir de 1 ano de vida. De acordo com a Sociedade Brasileira de Imunizações, o esquema recomendado consiste de 2 doses ao todo, com intervalo de 30 dias entre elas.

P.F. – Essas vacinas têm alguma contra-indicação?

P.S. – A vacina que protege contra a poliomielite, com apresentação injetável, é contraindicada em pessoas com história de alergia grave à dose anterior da vacina ou a algum de seus componentes. Ao passo que a vacina tríplice viral, por ser uma vacina composta por vírus vivos enfraquecidos, é contraindicada em gestantes, pessoas com comprometimento da imunidade secundária a uma doença ou ao uso de medicamentos, além de pessoas com história de alergia a algum componente da vacina.

P.F. –  Toda a população deve se vacinar?

P.S. – De acordo com a recomendação do Ministério da Saúde, todas as crianças menores de 5 anos devem ter o esquema completo com a vacina que protege contra a poliomielite. Já em relação ao sarampo, todas as pessoas de 1 a 50 anos devem atualizar o seu cartão de vacinas.

P.F. – A poliomielite foi erradicada na maioria dos países. Ainda existe algum lugar que isso não aconteceu?

P.S. – Sim. A poliomielite ainda não foi erradicada de países como Paquistão, Afeganistão e alguns países da África.

De acordo com a recomendação do Ministério da Saúde, todas as crianças menores de 5 anos devem ter o esquema completo com a vacina que protege contra a poliomielite. Já em relação ao sarampo, todas as pessoas de 1 a 50 anos devem atualizar o seu cartão de vacinas.

P.F. – Regionalmente, depois de países do sudeste asiático, a Europa é onde a situação do sarampo se mostra mais crítica. Por lá, o maior problema apontado não é falta de vacina, mas a indisposição consciente, por medo ou desconfiança, da população em tomar a vacina. Qual a sua análise a respeito?

P.S. – Infelizmente ainda temos uma divulgação de informações contrárias à vacinação através de grupos denominados antivacinais. São utilizados argumentos muitas vezes sem fundamentação científica e que defendem um posicionamento contrário àquele divulgado pelos grandes órgãos de referência em saúde, a exemplo da Organização Mundial de Saúde(OMS). Sendo assim, diante da divulgação de muitas informações equivocadas por esses grupos, muitas famílias desprovidas de informações de qualidade acerca de vacinação podem adiar a administração de vacinas por receio de eventos adversos.

Assim, a minha sugestão é que, sempre que uma pessoa tiver dúvidas em relação a uma informação sobre vacinas, que ela própria procure acessar sites confiáveis e discutir todas as suas dúvidas com um profissional da saúde que tenha conhecimento em vacinação. Acredito ser essencial que todas as pessoas procurem sempre se informar sobre as melhores decisões em saúde para si e para a sua família. No entanto, é necessário tomar muito cuidado com a procedência das informações divulgadas e com a qualidade dos estudos citados. Diante do cenário atual de surto de sarampo que ocorre em nosso país, fica clara a importância da vacinação. A decisão equivocada por não vacinar uma pessoa que não apresenta contraindicação a uma vacina pode causar consequências gravíssimas tanto para a saúde daquela pessoa quanto para a comunidade em que vive.