*** por Paulo Fernandes para rockontro.org

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RETORNO À MÚSICA SECULAR

“Infidels”, álbum de 1983, marca o retorno de Bob Dylan aos assuntos seculares, após três discos de gospel. Dylan havia se convertido ao cristianismo em 1978 e isto refletiu em álbuns de temática cristã: “Slow Train Coming” (1979), “Saved” (1980) e “Shot of Love” (1981). Este direcionamento espiritual influenciou também seus shows e turnês, nos quais não apareciam as músicas consagradas do passado.

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Dylan no Monte das Oliveiras em Jerusalém, 1983 – Encarte do álbum.

Tudo mudou com o lançamento de “Infidels”, Dylan se afasta do cristianismo e se reaproxima de suas raízes judaicas. O álbum está cheio de referências ao Velho Testamento da Bíblia, mas também há um retorno às questões políticas, sociais e ambientais. Um Dylan renovado em alto estilo, naquele que eu classifico como seu último grande disco.

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EM EXCELENTE COMPANHIA 

A sonoridade deste álbum é uma coisa fantástica, em grande parte devida a sensibilidade musical de Mark Knopfler (Dire Straits) que Dylan chamou para coproduzir o disco, juntamente com o ele próprio. Além da produção, Knopfler toca guitarra, sua participação na faixa Jokerman é inconfundível. Outros grandes instrumentistas ajudaram a dar brilho às canções de Dylan: Mick Taylor (ex-Stones) na guitarra, Alan Clark (Dire Straits) nos teclados e a super dupla jamaicana Sly Dunbar na bateria e Robbie Shakespeare no baixo. Estes dois últimos eram conhecidos como a melhor seção rítmica do planeta.

Mark Knopfler e Bob Dylan

Mark Knopfler e Bob Dylan

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BÍBLIA E PROTESTO

Jokerman, a faixa de abertura, entrou para história como mais um grande épico dylanesco, com suas referências bíblicas, embaladas pela guitarra de Mark Knopfler, pode ser vista uma advertência política contra “os manipulares das multidões” (os falsos profetas ou o Anticristo?). Temática também explorada, de forma mais direta, em Man of Peace, “você sabe que às vezes Satanás vem como um homem de paz”.

Dylan em Nova York, 1983

Dylan em Nova York, 1983

Imperialismo e capitalismo são criticados em License to Kill e Union Sundown, com citações à degradação do meio ambiente na primeira. Neighborhood Bully utiliza-se de sarcasmo para condenar o antissemitismo e defender o direito de existir do estado de Israel.

Após mexer em várias feridas, às vezes até com certo tom de pessimismo, Dylan encerra o disco com uma singela canção de amor: Don’t Fall Apart on Me Tonight.