Tatiana Potrich

(divulgação)

A Potrich Galeria de Arte, pela segunda vez foi convidada pelo Coletivo Tremma para realizar uma curadoria de obras de arte, agora inspirada no ícone goiano das letras, nosso símbolo maior da intelectualidade, a menina feia da casa da ponte de Vila Boa de Goyaz, Aninha, a Cora Coralina (1889-1985). Idealizar plasticamente esta senhora dos versos, saberes e sabores através do acervo foi um desafio.

Foram selecionados alguns artistas para representar não só nossa poetisa, mas seus doces contos e sua trajetória de vida. Ana foi o nome de batismo de Cora na época em que era comum entre os vilaboenses homenagearem Sant’Anna, uma espécie de padroeira da região. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu no período pós-abolição e sofreu uma educação rigorosa, tendo como figura rígida, mas exemplar, sua mãe, uma dama letrada com aptidões que se destacavam dentre as mulheres de seu tempo. Nota-se, desde a infância um empoderamento da artista inspirada na bisavó, avó, mãe, tia, irmãs e principalmente no hábito da leitura.

As obras ilustram a feminilidade, este saber sensível de uma mulher vanguardista, que viveu com simplicidade e adotou o altruísmo como estilo de vida. Sobre a mulher, a beleza e a estética, Cora Coralina descreveu em argumentos viris:

“A beleza da mulher extasia quem a contempla.

E algumas vezes se produz a impressão ao que se pode dar o nome de amor.

Outras vezes a impressão é todo do espírito.

E a plástica, por mais bem-acabada que seja não toca, nem de leve, nesse órgão misterioso que se chama coração.

Há mulheres que impressionam tanto o espírito de quem a vê, que a impressão de um momento perdura a vida inteira.

Como é preciso ter-se o ouvido educado para a música, deve se ter também a ótica educada para ver a beleza”.

A relação das obras de arte com a trajetória da poetisa está no conjunto da mostra, onde o tema de cada obra pode ser interpretado tanto à sua personalidade quanto à sua obra literária.

Sant’Anna”, do latim Anna, ou hebraico Hannah, a cheia de graça pode ser associada à imagem sacra do salão de arcos, na obra da alemã Eleonore Koch (1926-2018), única discípula do consagrado Alfredo Volpi, cuja simplicidade do cenário e a forte tonalidade de cores remetem tanto a natureza infante de Cora Coralina, quanto às próprias características da arte de Koch.

A “Mulher Maravilha”, uma das marcas registradas do inquietante, Pitágoras Lopes Gonçalves (1964), o goiano que dispensa apresentações em São Paulo, onde já conquistou espaço (no tão concorrido mercado de arte metropolitano), interage com anúncios publicitários e dá vida a personagem das HQ’s. Símbolo da garra, determinação e coragem, Cora adotou um estilo de vida independente, como uma amazona, que subiu no lombo de um cavalo e se aventurou por outros caminhos, quebrando pedras e plantando flores.

A obra do artista Dalton Paula é uma homenagem ao “Poema do Milho”, que celebra a fertilidade, o plantio, a colheita. A poetisa também escreveu a “Oração para o Milho” enfatizando a importância cultural deste alimento desde nossos ancestrais.

A “Guardiã do Mato” com olhos de Raio X, esta idosa que olha para o futuro e enxerga além é a imagem mais próxima da nossa protagonista, que publicou seu primeiro livro aos 76 anos. O fineart, com série limitada é do artista de rua Wés Gama, que espalha arte democrática com seus grafites nos muros e fachadas das cidades goianas.

A artista visual, ilustradora e designer de joias, Emília Simon ilustra com humor a divertida face da velhice:

“(…)o tempo passa, ninguém detém a passagem do tempo. Agora, saiba viver melhor para melhor envelhecer. (O que é viver bem?). Produzir. Não ser uma criatura inerte. Não dormir de dia, sobretudo. Ler. Estar atualizada com os fatos”.

De fato, a pintura sobre papel, “Mina, Mana e Mona” está bem atualizada nos modos e na moda, como a nossa Cara, Caríssima, Cora.

“Maria com Flores”, óleo sobre tela do hiper-realista, o baiano Tarcísio Veloso, radicado em Goiânia é o retrato fidedigno da ressentida criança negra, a excluída, a descendente de escravos:

“A inquilina da casa velha da ponte. A Maria das muitas que rolam no mundo (…) Maria Grampinho, diz a gente da cidade. Maria das sete saias, diz a gente impiedosa da cidade. Maria. Companheira certa e compulsada”.

Maria Grampinho foi uma figura peculiar da Cidade de Goiás e viralizou no circuito cultural quando foi acolhida e integrada como protagonista nos versos da poetisa.

Adriana Mendonça é artista e primorosa desenhista na técnica da aquarela, já ilustrou uma dezena de livros infantis, inclusive um sobre Cora Coralina. Mendonça mostra um trabalho especialmente produzido para este evento, assim a artista naif Helena Vasconcelos e como o prodigioso, Evandro Soares. Helena se inspirou na vida doméstica da doceira para pintar a fonte de seu saber, o seu lar! Evandro se inspirou na arquitetura geométrica da fachada, da tão citada, casa velha da ponte.

Fabiana Queiroga é multimídia e desenvolve trabalhos em design de joias, móveis, gráfico e estamparia. Seu trabalho permeia o universo feminino, a vida doméstica e a natureza.