As crianças irão fotografar o seu contexto e as fotos serão expostas ao público no Shopping Bougainville, em Goiânia, e em Londres

 

Dar voz às crianças e adolescentes que vivem em comunidades marginalizadas através da fotografia é o objetivo do Projeto Eyes of the Street (Olhares da Rua), que nasceu em Londres, fundado por uma goiana, a antropóloga e empreendedora social, Giselle Barboza, e o jornalista e professor de fotografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Daniel Meirinho.

O projeto teve início no Brasil em 2015 e já passou pelo estado de Pernambuco, Rio de Janeiro, Guiné-Bissau, no oeste da África, e Portugal. No dia 18 de fevereiro, o Projeto ‘Olhares da Rua’ chega à região metropolitana de Goiânia, na comunidade Terra do Sol, que fica localizado entre o aterro sanitário da cidade de Aparecida de Goiânia e o Complexo Prisional do Estado.  Dez crianças moradoras da comunidade Terra do Sol foram selecionadas pela organização comunitária, um dos critérios do projeto, de maneira que as atividades oferecidas pelo projeto não interfira nas agendas escolares das mesmas e é totalmente gratuito.

O projeto, que usa a fotografia como ferramenta de transformação social, oferece a oportunidade para os participantes refletirem sobre suas problemáticas e oportunidades, além de apresentar suas realidades a partir de uma percepção própria, longe de olhares estereotipados. Dentro da programação de atividades do projeto estão cinco dias de oficinas de fotografia, programadas para ocorrerem entre os dias 18 e 22 de fevereiro, das 14h às 17h, na própria comunidade.

O projeto funciona assim: os jovens participam de uma imersão criativa, recebem câmeras fotográficas para fotografar o seu contexto de acordo com o tema mais latente, que é definido pelos próprios jovens logo no primeiro dia. Um dos temas que Giselle sempre traz para dentro das oficinas é o uso da fotografia de forma ética.

“Apresentamos uma metodologia pedagógica para ajudar os participantes a entender que a fotografia é uma relação de troca de afetos, expomos algumas regras de como fazer a fotografia, uma delas é pedir permissão para as pessoas, externando a experiência da doação da fotografia. Ou seja, não é o fotógrafo que tira a foto e sim o fotografado que doa sua imagem”, esclarece Giselle.

Além das rodas de conversa sobre fotografia, haverá também palestras sobre sustentabilidade e comunicação interpessoal, temas estes que serão abordados respectivamente por Camila Storti, uma das fundadoras da Abissal e Alline Jajah, diretora da Jajah Marketing, ambas parceiras do projeto.

O público poderá conferir a produção das crianças em uma exposição das fotografias agendada para o dia 23 de fevereiro no Shopping Bougainville. E por fim, haverá uma outra exposição das imagens na Embaixada do Brasil, em Londres, com data a ser definida.

Essa será a sexta edição do projeto, que já beneficiou 103 pessoas, treinou 7 líderes comunitários para continuar o projeto, doou 29 câmeras fotográficas e gerou 28 exposições no Brasil, Portugal, Guiné-Bissau e Londres. O projeto também foi tema do Festival Internacional de Fotografia em Parati, no Rio de Janeiro, em 2016 e 2018, no Festival Todos em Lisboa; foi apresentado no ALAS (Latin American Sociological Association) Congress no Uruguai em 2016 e teve uma publicação pela revista acadêmica brasileira de estudos de mídia ‘Fronteiras’ intitulado: Fotografia participativa e relações de gênero: uma experiência visual com mulheres guineenses.

Por que a fotografia?

Segundo Giselle, a fotografia oferece aos participantes uma oportunidade íntima de reflexão sobre a realidade onde vivem, resultando em fotografias cheias de afeto, que identificam as problemáticas e os pontos positivos da comunidade. Enquanto retratam sua realidade, os participantes são estimulados a acreditar nos próprios sonhos. “Sonhos que, mesmo em meio a dura realidade que enfrentam, são encorajados através de afeições, personagens e repertórios pessoais dessas crianças, que fazem do local onde vivem um espaço de sobrevivência e esperança”, descreve.

A ideia do projeto Eyes of the Street (Olhares da Rua) surgiu em 2014, quando Giselle, que é Goiana radicada Londres há mais de 14 anos, graduada em Antropologia e Mídia pela Universidade de Londres e diretora criativa de sua própria agência na capital inglesa, realizou um documentário para uma TV britânica sobre a exploração sexual infantil no nordeste do Brasil. Ao assistir as imagens trazidas do Brasil, o olhar perdido de um garoto de 8 anos que cheirava cola nas ruas do Recife chamou a atenção de Giselle.

“Era um olhar profundo de tristeza, que me impactou muito e me conectou com algo que já a havia inquietado no passado”, diz ela, que  diariamente observava, durante sua adolescência, os menores de rua no trajeto diário que fazia para a escola de ônibus em Goiânia.  “Eu via crianças nas ruas, cheirando cola e me sentia incomodada; eu me perguntava porque essas crianças estavam passando por essa situação e não encontrava resposta.”

Ela começou a imaginar, mesmo de longe, o que poderia fazer para ajudar meninos como aquele a sonhar com uma vida diferente. Assim surgiu o projeto social que unia criatividade, fotografia e oportunidade.  “A premissa foi desenvolver algo a partir da minha expertise para ajudar”, conta. O nome do projeto foi criado em homenagem ao olhar do menino desconhecido, que sem saber empoderou Giselle a iniciar o projeto.

Continuidade

O projeto é sustentável e cinco câmeras serão doadas à comunidade e um líder comunitário será treinado para dar continuidade ao projeto no local e assim alcançar mais crianças e jovens da comunidade, que não poderão se juntar à esse primeiro grupo. “Além disso, nossa proposta é que  Eyes of the Street (Olhares da Rua) seja também um chamado a todos aqueles que tenham algum conhecimento que possam doar à comunidade”, convida Giselle.

Um dos parceiros nessa missão de continuidade é a SIM Engenharia, umas das empresas responsáveis pela construção na capital do Kingdom Park Residence, a mais alta torre residencial do Centro-Oeste que está sendo erguida ao lado do Parque Vaca Brava. A empresa é a patrocinadora oficial do projeto em Goiás, e além de apoio financeiro, pretende ajudar a comunidade a criar uma estrutura que possa abrigar novos projetos vocacionais na comunidade.

“A empresa defende a responsabilidade social como elemento fundamental para o desenvolvimento da sociedade, com o compromisso baseado na ética, no desenvolvimento sustentável e no bem-estar da comunidade, resultando em crescimento econômico saudável para todos”, assegura um dos diretores da SIM Engenharia, Paulo Silas Ferreira.  Em Goiás, o projeto também conta com o apoio da Abissal, Flávios Calçados, Jajah Marketing, Fujioka, Curta Mais, Shopping Bougainville e da Rádio Jovem Pan.

Receptividade

A comunidade recebeu o projeto de braços abertos.  “Tudo que vem pra nossa comunidade em prol das nossas crianças é ótimo. Espero que até saiam alguns fotógrafos para nossa comunidade. Eu espero também que abram os olhos humanos, não só do rosto mas do coração, para que as pessoas que vejam essas imagens, e o desempenho das crianças, entendam a situação delas e juntos possamos ter uma visão de melhorar.” Francisca da Silva, líder comunitária e moradora da comunidade.

Os participantes estão em contagem regressiva para a viver a experiência. “Espero aprender uma coisa boa, tirar fotografias das pessoas e das paisagens”, diz Ana Carolina de 14 anos, uma das dez inscritas.  “Venho acompanhando essa comunidade há 10 anos, com um projeto de alfabetização solidária. É um prazer ajudar a implementar essa iniciativa aqui”, declarou o professor Kemes Ferreira, um dos interlocutores do Eyes of the Street (Olhares da Rua) com os moradores do Terra do Sol. (Naiara Gonçalves)