Karolina Vieira

O HPV é responsável por 95% dos casos de câncer de colo de útero, o quarto tumor que mais mata mulheres no Brasil. A doença poderia ser prevenida e até erradicada com a cobertura de vacinação

Mais uma vítima das fake news de saúde que se espalharam pelo Brasil, a vacina contra o HPV é a maneira mais eficaz de se evitar o câncer de colo de útero, que tem 95% dos casos originados pela infecção pelo vírus. Mais de 300 mil mulheres morrem por ano em decorrência da doença no mundo, sendo 7 mil no Brasil.

“Uma vacina que tem poder de prevenir câncer merece ser divulgada e as pessoas precisam se iformar e esclarecer dúvidas para acabar com os temores e contribuir para que tenhamos uma cobertura vacinal satisfatória capaz de mudar a realidade no nosso país”, afirma a médica oncologista Daniele Laperche.

Apesar das campanhas de conscientização, o preconceito e as notícias falsas fazem com que os pais de adolescentes não procurem pela imunização que está disponível nos postos de saúde. “Só o uso do preservativo não previne a infecção e o vírus pode ser transmitido em qualquer relação sexual, por isso a vacina tem um papel importante na prevenção. Ela tem o poder de melhorar o sistema imunológico e, por isso a indicação é para os pré-adolescentes que ainda não iniciaram a vida sexual: meninas entre 9 e 14 anos e meninos de 11 a 14 anos”, explica a médica.

Os índices de vacinação no Brasil são de 40%. Outros países já mudaram a estratégia para melhorar a cobertura, aplicando as doses nas escolas em vez de nos postos de Saúde. O câncer de colo de útero é o terceiro que mais acomete mulheres no Brasil e o quarto em mortalidade. “A vacina tem uma eficácia acima de 98% contra subtipos do HPV que ela tem cobertura e, com isso temos a possibilidade de eliminação do câncer de colo de útero”, afirma Laperche.

Grupos de risco e sintomas

Alguns fatores de risco para mulheres desenvolverem o câncer de colo de útero são: início precoce da atividade sexual; diagnóstico de HPV; não realização do exame Papanicolau para detectar alterações pré-cancerígenas; histórico de Papanicolau alterado; múltiplos parceiros sexuais, devido a maior probabilidade de infecção pelo HPV; tabagismo e comprometimento da imunidade por infecção pelo HIV (vírus da AIDS) ou outras doenças que prejudicam o sistema imune.

Na maioria dos casos, as mulheres não apresentam sintomas. O sinal mais precoce é o exame Papanicolau alterado. O câncer se desenvolve lentamente e, por isso, se detectado no exame o tratamento tem alta taxa de eficácia. Mas com o crescimento do tumor, os sintomas são: sangramento vaginal anormal; secreção vaginal contínua; dor lombar; dor pélvica; sintomas urinários e retais e sintomas gerais de doença avançada como fadiga, perda de peso e do apetite.

Segundo especialistas, a doença é diretamente proporcional à desinformação e à dificuldade de acesso à saúde. Mesmo com o Papanicolau na rede pública desde os anos 1980, ele ainda é subutilizado, com uma cobertura anual de apenas 16%, quando o ideal era atingir uma meta mínima anual de 30% para cobrir 90% das mulheres da faixa-etária indicada em três anos. “Com a vacinação contra o HPV e a conscientização sobre os exames de rotina e prevenção, poderíamos erradicar a doença do Brasil”, pontua Laperche.