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Patricia Finotti

Sobre a obra de Cristo de três metros e meio de altura e dois metros e dez de largura, criada pelo médico e artista plástico Wagner Kuroiwa. (divulgação)

Beatriz Kuroiwa

Com mais de 3 metros de altura e 2 de largura, obra foi totalmente executada com radiografias e tem impressionado moradores e visitantes da região

Moradores e visitantes da região do Butantã têm se deparado com uma cena inusitada ao circularem a Praça Vicente Rodrigues, na Avenida Afrânio Peixoto, Butantã. A igreja e seu altar, que antes encontravam-se vazias e escuras pelo agravamento da COVID-19 no Brasil, agora iluminadas abrigam uma obra de Cristo de três metros e meio de altura e dois metros e dez de largura, criada pelo médico e artista plástico Wagner Kuroiwa.

“Pela condição de médico, sempre tive algumas radiografias em mãos e achei que elas poderiam servir como suporte para alguns trabalhos artísticos. Comecei a fazer alguns experimentos, mas logo senti o anseio em criar algo mais marcante, mais emocionante”, conta Wagner Kuroiwa. Construir um corpo com radiografias parecia óbvio demais, por isso, o artista começou a garimpar nos prontos-socorros onde dava plantão na época imagens que continham alguma lesão. 

“Nesse processo, encontrei radiografias de fraturas, próteses, marcapassos, tumores e até uma que continha uma bala, um tiro. Também achei imagens curiosas, como pinos, fixadores externos, instrumental cirúrgico e até uma chave, esquecida por engano no bolso de um paciente”, completa. 

No total, 86 imagens foram recortadas, remontadas e aderidas umas às outras com fita adesiva de um lado e resina de poliuretano do outro. Para dar sustentação, adicionou ainda linha de pesca de monofilamento e peças de chumbo de pesca, com sua simbologia própria, na base, estabilizando o trabalho. 

“A base das radiografias foi colocada sobre o assoalho de minha residência para a execução da pintura da obra. Durante vários dias permaneci ajoelhado, curvado, pintando. Curiosamente, durante todo o processo, não senti nenhuma dor nas costas nem no corpo”, conta Wagner, que relata ter sentido muita emoção ao ver, por fim, toda a obra concluída, com o Cristo no meio da transparência das dores humanas.

Emoção esta que está presente em todas as suas obras. “Busco inserir a concepção emotiva em tudo que produzo. Entendo que ela é essencial para a transmissão e identificação de um sentimento. Se você faz algo sem emoção, como você pode esperar que alguém veja aquilo com emoção?”, completa. 

Ao lado da obra de Kuroiwa, uma frase desperta novas emoções. De Isaías 53.4, “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades”, frase que parece descrever o momento vivido na pandemia. “Nesse momento tão doído, em que todos nós temos conhecidos, amigos e, quem sabe parentes, que tenham sofrido ou perdido até a vida, “tomar sobre si todas as nossas enfermidades é algo muito simbólico, que reforça a crença de que havemos de sobrepujar esse momento”, conta o artista. 

Juntos, o artista e a igreja procuram reforçar a esperança. “Com o agravamento da COVID-19 e as restrições que adotamos para proteger fiéis e equipe, sentimos que muitas pessoas que frequentavam a igreja sentiam falta de um alento. Expor uma obra de tamanha significância foi a forma que encontramos de confortá-los. É comum vermos pessoas na rua parando para contemplá-la”, conta Cristina Ellert Salomão, uma das responsáveis pela decoração na Igreja Presbiteriana do Butantã 

Sobre Wagner Kuroiwa

O artista nasceu em 1946, na cidade de Garça, no Estado de São Paulo, filho de uma família de imigrantes. Mostrando interesse na pintura desde os 6 anos de idade, Kuroiwa e suas técnicas evoluíram na mesma extensão que seu amor à arte. Utiliza desde pintura a óleo sobre telas, tinta acrílica sobre papel, aquarelas, escultura em madeira, entre outros, sobre diferentes superfícies, incluindo chapas de radiografias, uma ideia pioneira dele.Suas obras de arte são conhecidas pela variedade de cores e pela grande quantidade de detalhes que dão ao público um primeiro impacto, seguidos de uma visão mais cuidadosa para perceber cada um dos mínimos detalhes que compõe a peça.

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