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Patricia Finotti

Conteúdo Comunicação

Carina Bordalo

 

O artista visual goiano Benedito Ferreira lança O vizinho silencioso, projeto selecionado pelo Rumos Itaú Cultural, e retoma este tema lembrado apenas em efemérides. Em formato digital e com olhar contemporâneo, o caderno se debruça sobre a tragédia cujas consequências seguem assolando famílias atingidas. Ele contém trechos de entrevistas a sobreviventes, textos de estudiosos, fotografias e desenhos dos terrenos mais contaminados

 

“Precisamos falar sobre isso. Penso que as artes, no plural, sempre tocarão nessa ferida, pois ela não tem cicatrização”, afirma o artista visual goiano Benedito Ferreira, que lança, no dia 28 de maio (sábado), O vizinho silencioso em http://beneditoferreira.com/. Trata-se de um caderno digital composto por trechos de entrevistas de seis vítimas do maior desastre radiológico em área urbana do mundo, em 1987, com Césio-137, em Goiânia (GO).

Entre os relatos, Roberto Santos Alves, um dos catadores que achou a cápsula do elemento radioativo, conta no volume que o futuro de todas as vítimas ficou para trás, foi jogado fora. “Esse trem que aconteceu causou muita revolta, tristeza e sofrimento, e as vítimas do Césio ficam reclamando que não andam passando bem”, diz.

“Na época do acidente, a Santa Casa tava abandonada, desativada. Eles sabiam do perigo, não deviam ter largado a peça lá”, continua ele. “Os dedos da minha mão tá tudo defeituoso, doem, caem. Minha cabeça, onde aperta dói, o cabelo tá caindo até hoje ainda por causa da radiação. Você não tem aquela alegria igual eu tinha mais. A esperança da gente acabou.”

O caderno também é repleto de fotografias e desenhos dos dois principais terrenos contaminados, localizados no centro da cidade. “São espaços que foram revestidos de chumbo e cimento, sem qualquer placa de identificação”, conta o artista Benedito Ferreira. “Funcionam como parênteses silenciosos na arquitetura do centro de Goiânia e estão negligenciados pelos governos municipal e estadual.”

A obra contém, ainda, o processo de criação do projeto – selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2019-2020 – e textos do idealizador, do artista e curador Divino Sobral e da antropóloga Cláudia Vicentini.

As vítimas

“Buscamos encontrar seis vítimas e escutá-las nas varandas ou quintais de suas casas, localizadas em diferentes bairros de Goiânia e nas imediações de Aparecida de Goiânia, cidade vizinha à capital”, explica Ferreira. “Visitá-las em setembro de 2021, em contexto de pandemia, significou pensar no claustro desses corpos e nas implicações sociais da tragédia a partir de seus depoimentos.”

Além de Alves, deram seus depoimentos Geraldo Guilherme, Marques Rodrigues, Lourdes Ferreira, Luiza Odet e Suely Lina.  Junto de Wagner Mota, Alves retirou das ruínas da antiga sede do Instituto Goiano de Radioterapia parte do equipamento que continha a cápsula de Césio-137, dando início ao desastre radiológico. Ele teve seu antebraço direito amputado em consequência do contato direto com o pó do elemento químico.

Geraldo Guilherme, funcionário na época do ferro-velho de Devair Alves, foi quem auxiliou Maria Gabriela, esposa do patrão, no transporte da “marmita” de Césio-137 à sede da Vigilância Sanitária, impedindo que o desastre tomasse proporções ainda maiores.

“O Césio-137 para mim foi a pior coisa que aconteceu na minha vida” fala Guilherme. “Eu contaminei mais ou menos umas 70 pessoas dentro do ônibus, com a peça no ombro. Aí sentei, botei ela no colo, não aguentei e pisei em cima. Foi de onde veio a lesão que teve amputação”, conta. “Eu era um homem completo. Hoje, falta pedaço de mim.”

Policial militar convocado pela Operação Césio, Marques Rodrigues, trabalhou no isolamento dos “focos quentes” de contaminação e na guarda dos rejeitos radioativos no Depósito de Abadia de Goiás. Em 1995, foi diagnosticado com um tumor cerebral. Foi reconhecido como vítima somente em 2002, após intervenção do Ministério Público Estadual.

Lourdes Ferreira, esposa de Ivo Ferreira, dono do ferro-velho do Setor Norte Ferroviário, é mãe da menina Leide das Neves, que se contaminou após ingerir um ovo cozido com as mãos sujas de Césio-137. Ela foi a segunda vítima fatal do desastre. A sua tia, Luiza Odet, morava com o marido Kardec e os filhos no ferro-velho de seu cunhado Ivo Ferreira. Em outubro de 1987, foi transferida ao Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, em estado grave.

Suely Lina é a atual presidente da Associação de Vítimas do Césio-137 e residente do Setor Aeroporto. Mantinha relações de amizade e vizinhança com as famílias mais atingidas pela contaminação.

Desdobramento

As entrevistas também foram filmadas e virarão uma videoinstalação. De acordo com Ferreira, as conversas ultrapassaram a ação. “O projeto também aconteceu nos bastidores da imagem, como nos cartões-postais de Luiza Odet, colecionados quando ela esteve isolada no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, por exemplo”, diz. “No pedido de Roberto, para que ele fosse entrevistado debaixo de uma árvore na calçada de uma rua próxima a sua casa, ou, ainda, no convite de Dona Lourdes, mãe da menina Leide das Neves, que prometeu um novo encontro para uma macarronada com cerveja”.

Como tudo aconteceu

Foi no dia 13 de setembro de 1987 que dois catadores de reciclados retiraram das ruínas da antiga sede do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia, parte de um aparelho de radioterapia abandonado que continha uma cápsula de Césio-137. O rompimento do invólucro de chumbo, que separava a substância radioativa do ambiente, daria início ao maior desastre desse tipo já visto.

O intenso brilho azul emanado dos fragmentos de Césio-137, somente perceptível à noite, encantou Devair Alves, dono do ferro-velho para o qual o aparelho foi vendido e seria ofertado a familiares, amigos e vizinhos como uma espécie de tesouro. O elemento mágico, incolor e inodoro que fascinou a todos, transformou-se em uma substância mortífera, vitimando linhagens familiares e vizinhanças inteiras, assim como toda uma população.

Para os contaminados e irradiados, o fardo foi intensificado pela inabilidade das autoridades e da imprensa na comunicação do evento e pelo escrutínio prolongado de seus nomes, imagens e corpos radiados.

“Em Goiás, esse episódio é rememorado apenas em datas específicas ou por intermédio de pesquisas que alcançam um número mínimo de grupos sociais. Contudo, boa parte das pesquisas acadêmicas acabam encarceradas nos departamentos das instituições”, fala o artista.

“Ao propor um trabalho artístico, insistimos que o projeto aproxima outras gerações e desenha um recorte no e para o contemporâneo, pois são poucos projetos artísticos que estão dedicados aos desdobramentos no agora”, afirma. “A dinâmica da especulação imobiliária no entorno das áreas contaminadas ou mesmo a relação das vizinhanças, hoje, com os terrenos cimentados são deixados de lado”, completa. “Nosso objetivo não é propor uma revisão histórica marcada por didatismos, mas sim experimentar possibilidades híbridas de linguagem e, dessa forma, revelar novos públicos e debates.”

Benedito Ferreira

Não é a primeira vez que desenvolve um projeto relacionado ao tema do Césio-137. Em 2017, lançou o curta-metragem Algo do que fica, exibido em 19 estados brasileiros e vencedor do Prêmio João Bennio do 19o Festival Internacional de Cinema Ambiental.

Na ficção, duas mulheres cuidam e observam um homem idoso que ronda o lote da Rua 57, espaço emblemático da tragédia. “Em Algo do que fica, o interesse estava em pensar uma Goiânia atual, com personagens ficcionais que habitam o centro da cidade e, a partir de suas questões, descobrir o que as une”, explica. “Agora, neste novo projeto, fomos em busca do documental, do testemunho. Para mim, o documental não é um gênero, mas uma estratégia de propor relações íntimas com o cotidiano”. 

Sobre o Rumos Itaú Cultural

Um dos maiores editais privados de financiamento de projetos culturais do país, o Programa Rumos, é realizado pelo Itaú Cultural desde 1997, fomentando a produção artística e cultural brasileira. A iniciativa recebeu mais de 75,8 mil inscrições desde a sua primeira edição, vindos de todos os estados do país e do exterior. Destes, foram contempladas 1,5 mil propostas nas cinco regiões brasileiras, que receberam o apoio do instituto para o desenvolvimento dos projetos selecionados nas mais diversas áreas de expressão ou de pesquisa.

Os trabalhos resultantes da seleção de todas as edições foram vistos por mais de 7 milhões de pessoas em todo o país. Além disso, mais de mil emissoras de rádio e televisão parceiras divulgaram os trabalhos selecionados.

Na última edição, de 2019-2020, os 11.246 projetos inscritos foram examinados, em uma primeira fase seletiva, por uma comissão composta por 40 avaliadores contratados pelo instituto entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país. Em seguida, passaram por um profundo processo de avaliação e análise por uma Comissão de Seleção multidisciplinar, formada por 23 profissionais que se inter-relacionam com a cultura brasileira, incluindo gestores da própria instituição. Foram selecionados 91 projetos.

SERVIÇO:

Rumos Itaú Cultural 2019-2020

Lançamento de O vizinho silencioso

Dia 28 de maio

Em: http://beneditoferreira.com/

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