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Patricia Finotti

Waldisney em Goiânia. (crédito: Janderson Pires)
Primeira vez com O Porteiro em Goiânia, então a sensação é de estar chegando em casa.
Há oito anos (2 Dedos de Prosa com Alexandre Lino 2018)), conversamos com o ator e empresário Alexandre Lino sobre o lançamento da peça O Porteiro, em que ele dá a vida a Waldisney, o porteiro que assume a reunião do condomínio, diante do não comparecimento do síndico. Depois de conquistar o público do Brasil passando pelos palcos de diversas cidades, receber premiações, ganhar as telas do cinema e se tornar uma das comédias de destaque no streaming, o espetáculo chega pela primeira vez a Goiânia, ao som de “Alô Porteiro”, da inesquecível goiana Marília Mendonça.

Por trás de Waldisney, está um artista que fez das próprias raízes uma espécie de bússola. Do agreste pernambucano para o Rio de Janeiro, Alexandre Lino construiu uma carreira dedicada a personagens que, embora muitas vezes ocupem lugares discretos na sociedade, carregam mundos inteiros dentro de si. Neste 2 Dedos de Prosa, ele revisita a criação de O Porteiro, fala sobre a passagem do teatro para o cinema e sobre os diferentes modos de construir um personagem diante da plateia e das câmeras. Também reflete sobre invisibilidade e representatividade, revelando os sonhos que ainda o movem. É uma conversa sobre humor, mas também sobre memória, pertencimento e a magia de transformar as histórias de gente comum em arte. Confira!

 

A plateia participa ativamente. Esse é um dos grandes diferenciais da peça.

 

Patricia Finotti – Desde nossa primeira entrevista, em 2018, O Porteiro conquistou o público e recebeu importantes reconhecimentos, como o Prêmio FITA, além de indicação ao Prêmio do Humor, idealizado por Fábio Porchat. O que você está preparando para o espetáculo em Goiânia?

Alexandre Lino – É minha primeira vez com O Porteiro em Goiânia, então a sensação é de estar chegando em casa. São 9 anos de sucesso nos palcos e um filme que continua entre as comédias mais assistidas no Prime Vídeo. Chego para celebrar essa trajetória ao som de “Alô Porteiro”, da Marília Mendonça, nossa trilha sonora, com muitas piadas novas e já dando início às comemorações dos 10 anos do espetáculo.

 

P. F.O que despertou seu interesse em contar a história de Waldisney, um porteiro que observa tão de perto a vida dos moradores de um condomínio? Como foi construir esse olhar tão particular sobre as pessoas e transformar situações aparentemente corriqueiras em humor?

A.L. – Sou um ator nordestino que chegou ao Rio, vindo do agreste pernambucano, em 1993, com uma mala na mão e muitos sonhos. Durante anos interpretei porteiros no audiovisual, até ganhar destaque como Gilmar, em A Cara do Pai, com Leandro Hassum na TV Globo.
Depois do sucesso de Domésticas e Nordestinos, quis completar essa trilogia de espetáculos com uma história que também representasse meu povo, seus sonhos, suas lutas e, principalmente, seu jeito de rir da vida. Foi assim que nasceu Waldisney. O mais
bonito é perceber que, ao contar a história dele, o público também se reconhece. E é aí que o humor ganha ainda mais força e pertencimento.

 

O mais bonito é perceber que, ao contar a história de Waldisney, o público também se reconhece. E é aí que o humor ganha ainda mais força e pertencimento.

 

P. F. –  Você já interpretou outros personagens ligados à figura do porteiro, na televisão, no cinema e também na peça Os Detetives do Prédio Azul. Existe algum deles por quem tenha um carinho especial? E o que Waldisney trouxe de diferente para você?

A.L. – Todos os porteiros que interpretei na TV, no cinema, no teatro e na publicidade têm um lugar especial na minha trajetória. Em DPA, inclusive, tive a oportunidade de viver o próprio Waldisney, como primo do Severino, personagem do meu amigo Ronaldo Reis. Foi muito divertido esse encontro!

Mas o Gilmar, de A Cara do Pai, na Globo, foi especialmente marcante porque me mostrou a possibilidade de dar maior projeção a esses profissionais que fazem parte da nossa vida e, no meu caso, têm uma origem muito próxima da minha. Waldisney veio depois e trouxe algo ainda maior: a possibilidade de construir uma história inteira a partir desse universo e representar, com humor e afeto, tanta gente com quem me identifico. É um orgulho representá-los.

 

P. F.A peça é apresentada como uma espécie de reunião de condomínio e conta com a participação do público. Como surgiu essa proposta de interação e o que ela acrescenta à experiência do espetáculo?

A.L. – A peça nasce do meu encontro com o diretor e autor Paulo Fontenelle, com quem trabalhei no filme Apaixonados. Ele percebeu que eu já tinha uma relação com personagens porteiros e, a partir de uma conversa sobre novos projetos, nasceu O Porteiro. Fizemos entrevistas com profissionais da área para construir o universo do espetáculo e surgiu o desejo de colocar o público dentro dessa história. Daí veio a ideia da reunião de condomínio, em que a plateia participa ativamente. Esse é um dos grandes diferenciais da peça: nenhuma sessão é igual à outra. Para mim, como ator, é muito estimulante; para o público, uma experiência divertida e inesquecível.

 

P. F.Depois do sucesso de O Porteiro nos palcos, como foi o processo de transformar essa história em filme? O que mudou quando Waldisney deixou o teatro e chegou às telas?

A.L. – Essa passagem foi muito curiosa e, ao mesmo tempo, um desafio maravilhoso. Eu já estava há cinco anos vivendo o Waldisney nos palcos, com o espetáculo circulando pelo Brasil e fazendo muito sucesso. Quando Paulo adaptou a história para o cinema, me chamou e disse: “O personagem é o mesmo, mas a forma é diferente”. E é exatamente isso. Cinema e teatro têm linguagens muito distintas. O grande desafio, e também o prazer, foi descobrir como viver o mesmo Waldisney de uma maneira diferente diante
das câmeras.

 

P. F.Quais foram os principais desafios para preservar no filme o humor, o ritmo e a relação com o público que funcionam tão bem no palco?

A.L. – Atuar para a câmera exige mais internalização: é preciso viver muito pelos olhos. No teatro, usamos o corpo de forma mais ampla e a relação com o público é direta. O desafio foi fazer essa transição sem perder a essência do personagem. E, no caso do Waldisney, o humor é a alma, e isso já está dentro dele.

 

E sim, estamos caminhando para O Porteiro 2! Então podem esperar: vem novidade por aí!

 

P. F. – Para quem ainda não assistiu ao filme, onde ele está disponível? E existe a possibilidade de vermos Waldisney, novamente no cinema?

A.L. – O filme está disponível no Prime Vídeo e continua entre as comédias mais assistidas da plataforma. E sim, estamos caminhando para O Porteiro 2! O público pede muito a continuação, além de uma série e até uma versão vertical para celular. Então podem esperar: vem novidade por aí!

 

P. F. Você construiu uma carreira muito diversa, transitando pelo teatro, cinema e televisão e também atuando em áreas como direção, produção e formação de novos artistas. Quando olha para essa trajetória, existe algum trabalho ou momento que considera um divisor de águas?

A.L. – Eu me defino como um artista empreendedor. Essa é a síntese da minha trajetória, construída degrau por degrau, realizando sonhos e também transformando em possibilidades aquilo que chega às minhas mãos. Mas o grande divisor de águas foi meu encontro com Antônio Abujamra, no Teatro Glória. Ouvi-lo e trabalhar com ele me fizeram compreender profundamente o que significava estar em cena e me deram bases para construir e permanecer nessa trajetória.

 

Sou um retirante e sei o que significa viver sob o manto da invisibilidade.

 

P. F. Muitos dos personagens que você interpreta são figuras muito próximas do cotidiano, pessoas que muitas vezes passam despercebidas, mas que carregam histórias e particularidades. O que o atrai nesses personagens e o que eles revelam sobre o seu próprio olhar para a sociedade?

A.L. – Sou um retirante e sei o que significa viver sob o manto da invisibilidade. Talvez por isso eu me interesse tanto por personagens e histórias de pessoas comuns, que muitas vezes passam despercebidas, mas carregam grandes experiências e sabedorias. Mantenho minhas raízes muito presentes no meu trabalho e gosto de revelar, celebrar e lançar luz sob essas histórias. É isso que dá sentido e propósito à minha carreira.

 

Tenho o desejo de levar à cena um texto de Nelson Rodrigues, fazer um novo trabalho voltado para a infância e montar uma grande obra da dramaturgia universal.

 

P. F.Olhando para o futuro, o que provoca em você aquela vontade de começar um novo projeto? Existe algum papel ou desafio que sente que precisa realizar?

A.L. – Sou movido por isso e ainda tenho muitos personagens que quero viver. Tenho o desejo de levar à cena um texto de Nelson Rodrigues, fazer um novo trabalho voltado para a infância e montar uma grande obra da dramaturgia universal. São sonhos grandes, mas aprendi que nenhum deles é maior do que a nossa capacidade de realizá-los. E, se Deus quiser, vou realizar todos. Em breve!!!

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