Leite materno impacta a sustentabilidade, a economia familiar e também os governos

Foto 3 - Amamentação favorece a mãe, o filho e até o meio ambiente
A criança que mama no peito cresce e se desenvolve melhor. Os 6 primeiros meses de vida são os mais importantes para o desenvolvimento do bebê

A maioria das pessoas conhece ou já ouviu falar sobre os benefícios da amamentação para a mãe e para o bebê. Além das vantagens amplamente divulgadas, a alimentação por leite materno gera impactos ambientais, econômicos e até sociais. A explicação é bastante simples. Amamentar garante saúde para a mulher e para a criança, o que significa menos gasto com complementação nutricional e menos resíduos na natureza.

O efeito dominó é um incentivo a mais para que as crianças mamem exclusivamente no peito durante os seis primeiros meses e até os dois anos de idade ou mais, combinando com alimentos sólidos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Na ponta do lápis, o leite materno sai muito mais barato e evita a geração de lixo composto pelas embalagens e latas onde são comercializados as fórmulas lácteas.
Por exemplo, se analisarmos que menos de 40% dos bebês são amamentados em todo o mundo, isso significa que cerca de 60% das outras crianças terão de ser alimentadas por esse tipo de complemento nutricional. Como são vendidos em materiais formados por plásticos ou alumínio – que demoram cerca de seis meses até 450 anos para se decomporem no meio ambiente -, mais itens do gênero serão descartados. Além disso, o aleitamento materno diminui o consumo de bicos, de mamadeiras e de combustíveis como o gás de cozinha para ferver a água e esterilizar os objetos utilizados pelo bebê.
Similar à proteção ambiental, a economia de dinheiro também é assustadora. Enquanto amamentar é de graça, o preço das fórmulas infantis para bebês com menos de 6 meses no mercado são mais caras e aquelas para crianças maiores são mais baratas. Depois de diluída em água, cada lata de leite artificial rende entre 2,8 litros e 3 litros de leite.

 Considerando os maiores valores da quantidade de leite consumido diariamente do nascimento até 12º mês de vida da criança, haverá necessidade de 271 litros do leite em pó, no máximo, e de 163 litros, no mínimo, apenas no primeiro ano (ver tabela).

Pesquisas da Associação Americana de Pediatria mostram que mães que amamentam exclusivamente durante o primeiro semestre de vida dos filhos poupam cerca de mil dólares. Com esses números, dá para imaginar o tamanho da despesa mensal no Brasil apenas com a complementação nutricional. Aliado a isso, os reflexos financeiros incluem também custos reduzidos com remédios, planos de saúde, internações e consultas com pediatra já que as crianças alimentadas com leite materno têm menos doenças. Dessa forma, a família e os governos desembolsam menos com combustível e tempo para se deslocarem ao hospital onde são atendidas as crianças com problemas

decorrentes das morbidades (conjunto de causas capazes de produzir uma doença) associadas com maior frequência aos bebês alimentados artificialmente com leite em pó ou mesmo leite de vaca.

Neste ano, o Hospital Materno Infantil (HMI) realizará programação especial por ocasião da Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM). Intitulada mundialmente este ano como “Amamentação: Uma chave para o Desenvolvimento Sustentável”, no Brasil o evento foi batizado de “Amamentação: bom para seu filho, bom para você e bom para o planeta”. No HMI, as atividades ocorrerão amanhã, quarta-feira (03 de agosto), no auditório da unidade, e serão compostas por palestras e um grande mamaço. “Nosso objetivo é incentivar o aleitamento materno, que é o melhor alimento nos primeiros seis meses”, explica a coordenadora do Banco de Leite Humano (BLH) do HMI, Renata Leles. De acordo com a OMS, o leite materno é a forma mais eficiente de assegurar a saúde e a sobrevivência da criança. A agência da ONU revela que 1,5 milhão de mortes de crianças antes dos 5 anos de idade poderiam ser evitadas com amamentação.
Pequena fortuna – Na prática, a amamentação promove menos morbidades, menos hospitalizações e maior intensidade do vínculo afetivo. Segundo uma publicação sobre amamentação feita pela revista científica inglesa The Lancet em janeiro deste ano, os gastos com saúde associado à ausência de aleitamento materno somam mais de US$ 300 bilhões, valor comparável a todo o mercado farmacêutico global. De acordo com a publicação, se as taxas de aleitamento chegassem a 90%, a economia – em dólares – seria de US$ 2,45 bilhões nos Estados Unidos, US$ 223,6 bilhões na China e US$ 6 milhões no Brasil.

É sempre bom reforçar que a amamentação ajuda na recuperação pós-parto do corpo da mãe; ela perde peso e o bebê ganha; acalma a mulher e a criança; sacia a fome do bebê; pode servir como método contraceptivo para a mãe; protege a criança de alergias posteriores e infecções; cria um laço afetivo entre mãe e bebê; ajuda na formação da mandíbula e da língua da criança; e favorece o desenvolvimento infantil. Mesmo com a infinidade de benefícios do leite humano, as mães precisam de orientação e apoio. Diariamente, elas enfrentam obstáculos como licença maternidade limitada ou inexistente e até a cultura pela substituição do leite materno por fórmulas artificias. Há uma meta global da OMS para que os países consigam alcançar pelo menos 50% do aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses até 2025 já que, atualmente, somente 35,7% dos indivíduos no mundo alcançam esse patamar.

Apoio – No caso de recém-nascidos prematuros, a mortalidade é alta. Para contribuir com a recuperação dessas crianças nascidas no HMI, as mulheres que por algum motivo

não podem alimentar os filhos nessa condição têm à disposição o BLH. Funciona da seguinte forma: as mães internadas no hospital ou doadoras de fora da unidade ajudam na recuperação dessas crianças internadas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e de Cuidados Especiais Neonatal (Ucin). O setor realiza ainda orientações àquelas mães que estão com dificuldade na hora da amamentação ou familiares com dúvidas sobre o aleitamento materno. Graças às voluntárias, o setor, que tem 70 mães cadastradas, conseguiu captar 138 litros de leite materno em julho, sendo 30,5 litros apenas na penúltima semana do mês passado.

Experiência – O contexto familiar foi o incentivo maior da dona de casa Ilze Sousa. Ela é mãe da pequena Mariana Oliveira, de 1 ano e 10 meses. A garotinha ainda mama no peito da mãe, que sabe das vantagens do ato para ela e para a criança. “Venho de uma família na qual todos os bebês foram amamentados e se sei dos benefícios disso. Comprovo isso com a minha filha, por exemplo, em relação ao bom ganho de peso e imunidade dela”, diz. Segundo Ilze, é comum entre as familiares a doação de leite materno à unidade. Ela, inclusive, não fugiu à regra.
“Doei leite por 1 ano e 2 meses para o BLH do hospital desde quando Mariana tinha 20 dias de vida porque sou bastante consciente da importância para os bebês e também do serviço prestado pelo HMI”, afirma ela, que armazenava o líquido e entregava semanalmente para as integrantes do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás (CBMGO), por meio da Fundação Dom Pedro II, que realizam a busca domiciliar. “A equipe do BLH/HMI foi super atenciosa e receptiva, o que nos motiva muito a continuar com a doação. As bombeiras ainda nos orientam sobre a higiene na hora da ordenha”, destaca.
Com as informações que o BLH oferece, muitas mulheres conseguem solucionar o que parecia impossível. A intérprete de Libras Ana Claudia teve dificuldade para amamentar os dois filhos e recebeu capacitação no serviço especializado do HMI. Mas foi quando o segundo filho, Fabio Coelho, de 8 meses, nasceu que ela se surpreendeu. O garoto tem Síndrome de Down e ela necessitou de um auxílio diferenciado e mais paciência. Crianças nessa condição apresentam maior dificuldade no início do aleitamento, especialmente em relação à pega correta, porque o reflexo de busca pelo seio não é tão ávido. Em consequência disso, as mães sentem um pouco de dificuldade para fazer o bebê abocanhar o peito e precisam ser ensinadas a estimular os filhos.

Ana Claudia afirma não ter sido incentivada pela família a amamentar. “Minha mãe amamentou o mínimo possível e no passado não se falava muito desse assunto. Fui aprender mesmo sobre isso durante a gravidez ao pesquisar na internet e depois que minhas as crianças nasceram tive orientação no HMI”, relata. Ana Claudia atribui ao aleitamento a boa saúde dos meninos. “Eles nunca adoeceram gravemente. O Fábio, por exemplo, nunca teve alergia, problemas respiratórios ou gripe”, ressalta ela, que também é mãe de Thomas Coelho, de 2 anos. Ela é doadora do BLH desde a primeira gestação e repetiu a ação após a segunda gravidez. Atualmente, mesmo amamentando os dois filhos, Ana Claudia ordenha o líquido em casa e entrega à equipe de busca domiciliar do Corpo de Bombeiros.

Renata Leles explica que o leite materno contém proteínas, vitaminas, sais minerais, enzinas, probióticos, prébióticos, células de defesa e anticorpos provenientes da mãe e ainda dos microorganismos com os quais ela teve contato. “Por isso, as crianças alimentadas com o leite da mãe raramente ficam doentes e quando isso acontece, raramente morrem. É um alimento vivo com nutrientes em qualidade e quantidade adequadas, por isso a indicação de fórmulas ocorre apenas em casos específicos”, destaca.

Projeto de lei – Tramita na Câmara de Deputados uma proposta que isenta as doadoras de leite materno e as pessoas de baixa renda do pagamento de taxa de inscrição em concursos, para provimento de cargos e empregos públicos realizados no âmbito da União. O texto foi aprovado pela Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público  em 29 de julho deste ano e segue para análise das comissões de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Se enquadrariam na proposta a candidata que tenha doado leite materno em pelo menos três ocasiões nos 12 meses anteriores à publicação do edital do concurso, mediante apresentação de documento comprobatório, emitido por um Banco de Leite Humano e o candidato que estiver inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal e for membro de família de baixa renda. (Bastidores Comunicação)