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Patricia Finotti

(crédito: arquivo Diogo Rustoff)
Bárbara Falcão

Diogo Rustoff leva trabalho ao histórico museu paulistano questionando figura controversa do bandeirante. Reinauguração do edifício-monumento tem proposta decolonial e representa o Anhanguera em caçamba de lixo

 

A reinauguração do Museu do Ipiranga, em São Paulo, inaugura também um novo momento na interpretação da história do Brasil e seus simbolismos. Conhecido por ser um museu de elites, que sempre acolheu apenas um olhar colonizado sobre a história da construção do Brasil República, sua curadoria ressurge com uma nova proposta, contemporânea, autônoma, decolonial. É neste contexto que o artista visual goiano Diogo Rustoff tem sua obra de contestação “Fake Hero” exposta num dos principais museus do país que, por mais de um século, voltou seus olhares apenas para um passado de violência e dominações dissimulado de heroísmo e desbravamento.

Rustoff é um observador da cidade. Seus trabalhos, seja em stencil, lambe ou acrílica, refletem suas observações apuradas sobre as figuras urbanas, seus hábitos e suas relações com o espaço que habitam. E foi acompanhando as manifestações decolonialistas, que nos últimos anos têm agitado desde o ambiente acadêmico até as intervenções artísticas de rua, que ele chegou à representação do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, aquele monumento dá o nome à Avenida Anhanguera, dentro de uma caçamba de lixo, obra que agora integra a galeria do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, mais conhecido como o Museu do Ipiranga.

“A questão do Anhanguera em Goiânia é sempre um assunto polêmico. Sou da opinião de que tem que tirar a estátua do centro da cidade porque ela representa a opressão. Foi por isso que o desloquei da posição de herói, de um agente da civilização, para representá-lo como um mero entulho”, manifesta o artista. Por isso, para Rustoff, “a reabertura do Museu do Ipiranga com essa temática decolonial é de extrema importância, indo ao encontro daquilo que estamos vivendo hoje, deste momento de repensar e reposicionar as figuras que foram opressoras e violentas com nosso povo e nossa cultura”.

Fake Hero, uma acrílica sobre tela de 30cm x 50cm, integra a exposição “Passados imaginados”, uma das onze exposições permanentes que foram apresentadas ao público na ocasião da reabertura do museu, no último dia 7 de setembro, exatos 127 anos depois de sua inauguração oficial, ocorrida em 7 de setembro de 1895 ainda com o nome de Museu de História Natural. Celebrando o bicentenário da Independência, as exposições colocam à disposição dos visitantes cerca de 3,7 mil peças, dos 450 mil itens de seu acervo, a maioria inédita e que remonta ao Brasil colonial.

A presença de uma obra de contestação no Museu do Ipiranga é significativa, vez que seu saguão é marcado pela representação de esculturas de bandeirantes, como Manuel Preto, Raposo Tavares e Fernão Dias, imponentes, que circundam a figura central de Dom Pedro II. Até seu fechamento, em 2013, essas presenças eram incontestes, representadas como pilares do desenvolvimento de nossa Nação. No entanto, nove anos depois, embora permaneçam em seus locais de destaque, suas imagens já são apresentadas sob um outro olhar de reflexão proposto pela curadoria de Paulo Garcez Marin.

Rustoff acredita que todo este movimento é um exemplo de como a arte contemporânea é capaz de repensar a história e a representação de personagens históricos. Para ele, as manifestações de rua, como o ato que incendiou a estátua de Borba Gato em São Paulo no ano passado, teve sua relevância para fazer com que as instituições repensassem o modo como nossa história estava sendo contada.

O artista pondera que o questionamento da colonização, do “herói da nação”, está se dando ao redor de todo o mundo. E situa que a arte tem um papel educativo, lúdico, que pode educar por meio da fantasia. “Acredito que podemos transformar o mundo através da arte. Ela atinge lugares que a palavra não consegue alcançar. Ela nos modifica de uma maneira que sequer imaginamos ser possível. Então temos o poder de criar uma imagem que gera reflexão. Olha só como é emblemático ter uma obra com uma paisagem suburbana, periférica, no Museu do Ipiranga, que até agora somente representava a colonização.”

Pode ser que alguns goianienses não saibam seu nome ou desconheçam sua trajetória artística, mas sabem reconhecer nos muros e paineis a arte que ele espalha pela cidade e que já se integrou à paisagem da capital. Aliado à sua pesquisa histórica, este olhar transporta Rustoff de um lugar apenas de cronista da paisagem urbana de Goiânia para o de um contestador que, por meio da arte, realiza críticas sociais certeiras, sempre antenado com as discussões políticas que movimentam a sociedade. 

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