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Patricia Finotti

(crédito: Acervo Bororó)

MUSH Comunicação / Talita Prudente

 

Músico goiano que acompanhou nomes como Beth Carvalho e Gal Costa apresenta show-aula gratuito em Senador Canedo e Hidrolândia neste mês de outubro

 

Aos 12 anos, Bororó Felipe começou a tocar em conjuntos de baile e deu os primeiros passos de uma trajetória que já atravessa mais de cinco décadas. Ao longo desse percurso, o músico goiano acompanhou nomes como Beth Carvalho, Gal Costa, Ivan Lins, Edu Lobo e Milton Nascimento, circulou por palcos brasileiros e internacionais, lançou discos e construiu uma carreira como instrumentista, compositor, arranjador e produtor. Agora, ele transforma essa experiência em conhecimento compartilhado no projeto “A Maestria da Música Brasileira”, com apresentações gratuitas em Senador Canedo, no dia 17 de outubro, e Hidrolândia, no dia 31.

 

O formato une música e formação para aproximar o público dos processos que estão por trás de diferentes gêneros da música brasileira. No palco, Bororó utiliza voz e instrumentos para mostrar como são construídos ritmos, harmonias e arranjos. “Vem da necessidade de quebrar a barreira do palco tradicional e aproximar o público do fazer musical. Mostro como nasce um baião, como se constrói um samba, como a música cubana influencia esses ritmos e como os ritmos africanos se misturam à música brasileira”, explica o músico.

 

A experiência de Bororó Felipe permite que o momento seja também um mergulho na própria história da MPB. Ao falar sobre Milton Nascimento, por exemplo, ele imediatamente associa a memória ao universo do Clube da Esquina; já a convivência com Edu Lobo o remete às construções harmônicas de Edu e Tom Jobim. Entre essas referências, o músico também destaca Sérgio Ricardo, compositor de trilhas do Cinema Novo, com quem manteve uma amizade de mais de 40 anos.

 

Para o artista, esse projeto também é uma forma de devolver à sociedade aquilo que recebeu ao longo da carreira. Além dos palcos, Bororó atua em oficinas, cursos e projetos de formação, principalmente em Pirenópolis, no instituto cultural que leva seu nome. “A música não é apenas entretenimento, ela serve para emancipar”, afirma. Para ele, ensinar técnica, informação e vivências às novas gerações faz parte do compromisso de um artista com a sociedade e com seu território.

 

“A arte e a música carregam um poder gigantesco de transformação social e humana. Consequentemente, o artista tem um compromisso ético e político com a sociedade, com o seu território e especialmente com as novas gerações que querem aprender. A música não é apenas entretenimento, ela serve para emancipar. Para mim, entrar numa sala de aula ou oficina e compartilhar técnica, informação e vivências é devolver para o mundo o que recebi”. – Bororó Felipe

 

A escolha de levar “A Maestria da Música Brasileira” para Senador Canedo e Hidrolândia também está ligada a essa perspectiva. Bororó identifica nas duas cidades uma movimentação cultural ativa e considera que a circulação do show-aula pelo interior amplia o sentido da proposta de formação para músicos, público em geral e estudantes, além de promover a descentralização cultural. Em Senador Canedo, o evento está marcado para dia 17, às 19h, no auditório do Paço Municipal. Já em Hidrolândia ocorrerá no dia 31,  às 19h30, no Centro Cultural Hidrolandense. O projeto foi contemplado pelo Edital de Música n°11/2026, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por meio do Ministério da Cultura e do Governo de Goiás.

 

Goiás e MPB

A relação de Bororó com Goiás passa pela defesa de uma música que reconheça suas próprias raízes. Para ele, o estado reúne ótimos instrumentistas e compositores, mas ainda precisa ampliar o investimento em formação, sendo o conhecimento sobre a história musical do estado parte desse processo. “Temos patrimônios da cultura goiana como Tonico do Padre, compositor de Pirenópolis que viveu no século XIX, e o maestro e professor Estércio Marquez Cunha, da Escola de Música da UFG. Suas carreiras precisam ser contatadas”, exemplifica.

 

Essa valorização das raízes também aparece quando Bororó fala sobre os caminhos que os jovens músicos goianos podem construir sem precisar abandonar sua identidade. Para ele, a tradição não deve ser apenas reproduzida, mas estudada e transformada a partir do diálogo com outras linguagens. “Tocar por tocar ou compor sem propósito não sustenta uma trajetória consistente. O jovem músico precisa enxergar a dimensão do que está entregando para o outro e para a sua comunidade”.

 

A discussão sobre identidade e memória atravessa ainda os próximos caminhos do artista. Em seu projeto “Brasil Kalunga”, Bororó se dedica à preservação de cantigas, oralidade, dança e saberes do povo Kalunga. “ Nosso objetivo é fazer o Brasil e o mundo tomarem consciência da grandeza histórica, social e humana do povo Kalunga, sempre dando protagonismo às suas manifestações e apontando também para as urgências estruturais dessa gente”, conta Bororó.

 

É justamente essa busca por identidade que, segundo Bororó, resume o legado que pretende deixar. Para ele, fazer uma música brasileira capaz de dialogar com o mundo passa necessariamente pelo conhecimento das próprias raízes. “Se você quer fazer uma música brasileira universal, aquela que emociona em qualquer lugar do mundo, você tem que saber quem você é e de onde você veio. Identidade se conquista com estudo, pesquisa de campo e respeito à própria ancestralidade”, afirma.

 

Sobre o artista

Bororó Felipe é músico, compositor, arranjador e educador goiano. Nascido em Goiânia, passou mais de 25 anos atuando no Rio de Janeiro, onde trabalhou com nomes como Beth Carvalho, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Gal Costa, Ivan Lins, Edu Lobo e Milton Nascimento. Multi-instrumentista, com destaque para o contrabaixo, também se dedicou à formação de novos músicos, lecionando em espaços como o CIVEBRA e a Escola de Música e Artes Cênicas da UFG (EMAC). Em 2025, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, em reconhecimento à sua contribuição para a cultura, as artes e a formação humana no Brasil.

 

Em 2019, a EMAC/UFG inaugurou o Laboratório de Música Popular Bororó Felipe (LABORIS), espaço dedicado ao ensino, à pesquisa, à extensão e à performance no campo da música popular. Entre as homenagens recebidas estão o Troféu Buriti, concedido pela Secretaria de Cultura de Goiânia, e a Medalha Nhanhá do Couto, concedida pelo Conselho Estadual de Cultura, por sua contribuição à música em Goiás. Bororó também é membro da Academia Goianiense de Letras.

 

Serviço

A Maestria da Música Brasileira — Show-aula com Bororó Felipe

Gratuito

 

Senador Canedo

17 de outubro de 2026 19h

Entrada gratuita

Auditório do Paço Municipal – Avenida GO-403, Km 9, Morada do Morro, Senador Canedo – GO

 

Hidrolândia

31 de outubro de 2026 19h30

Entrada gratuita

Centro Cultural Hidrolandense – R. Antônio Miranda, número 422, Hidrolândia – GO

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