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Patricia Finotti

(crédito: Pablo Lopes)

Ana Paula Mota

Com atuação da goiana Takaiúna e direção da boliviana Claudia Eid Asbún, montagem afro-latino-americana percorre espaços culturais da cidade nos dias 22, 23 e 24 de outubro, abordando ancestralidade, liberdade e os saberes de cura das mulheres negras

As memórias, as lutas e os conhecimentos ancestrais das mulheres negras ganham o palco em três apresentações gratuitas do espetáculo “1888”, que percorre espaços culturais de Aparecida de Goiânia nos dias 22, 23 e 24 de outubro. Com atuação e dramaturgia da atriz goiana Takaiúna e direção da boliviana Claudia Eid Asbún, a montagem será apresentada na sede do Instituto Justina, no dia 22, às 19h30; no CENFI, no dia 23, às 14h; e no Ponto de Cultura Rosa dos Ventos, no dia 24, às 19h30. A circulação integra o projeto Temporada 1888 – Dramaturgia Afro-Latinoamericana, realizado pelo Instituto Justina, com coprodução do Coletivo Justina (Brasil) e El Masticadero (Bolívia). A iniciativa foi contemplada pelo Fundo de Arte e Cultura de Goiás (FAC-GO), por meio do Edital Cultura Negra e Periférica de Goiás – Tradição, Arte e Identidade.

Mais do que revisitar o ano da abolição formal da escravidão no Brasil, “1888” propõe uma reflexão sobre as marcas que esse passado deixou na sociedade contemporânea. A partir de uma narrativa construída entre o Brasil e a Bolívia, o espetáculo aborda a permanência das estruturas escravocratas, as violências historicamente impostas às mulheres negras latino-americanas e as formas de resistência preservadas por meio da ancestralidade.

A montagem também coloca em evidência conhecimentos tradicionais de cuidado e cura, transmitidos entre gerações de mulheres pretas, e convida o público a refletir sobre a liberdade, a memória e a importância de reconhecer histórias frequentemente silenciadas.

Justina: memórias de mulheres pretas atravessam os séculos

No centro da narrativa está Justina, uma mulher preta e curandeira que vive no Brasil de 1888. Entre ervas, rezas, lembranças e silêncios, a personagem carrega experiências que ultrapassam sua própria existência e revelam histórias de mulheres que vieram antes dela, assim como daquelas que ainda estão por vir.

Em cena, Justina conversa com um bebê sobre a vida e a liberdade. A música, a dança e a expressividade corporal conduzem uma narrativa em que passado e presente se encontram. O tempo deixa de seguir uma ordem cronológica, atravessando acontecimentos que vão de 1535 ao século XXI. Nesse percurso, o espetáculo estabelece relações entre a violência histórica da escravidão, suas consequências contemporâneas e a resistência das populações negras. Ao mesmo tempo, reconhece os saberes ancestrais de mulheres que, por meio das plantas, das rezas e de práticas tradicionais de cuidado, preservaram conhecimentos fundamentais para suas comunidades.

A cura, nesse contexto, ultrapassa a dimensão individual. Ao buscar cuidar de si, Justina também procura acolher as dores de outras gerações, transformando a memória em um caminho de continuidade e resistência.

Uma criação artística que aproxima Brasil e Bolívia

Criado em 2022, “1888” nasceu de um processo de formação e investigação dramatúrgica desenvolvido por Takaiúna em parceria com Claudia Eid Asbún. A colaboração entre as artistas resultou em uma dramaturgia que aproxima experiências afro-brasileiras de questões compartilhadas por mulheres negras de diferentes territórios latino-americanos.

Durante a pesquisa, Takaiúna desenvolveu o conceito de “elementos-pontes”, utilizado para identificar elementos cênicos que compartilham uma cosmologia comum em diferentes regiões da América Latina. Essas conexões ajudam a construir a personagem Justina e a estabelecer diálogos entre saberes, manifestações culturais e experiências históricas.

A direção é assinada por Claudia Eid Asbún, dramaturga, diretora, atriz e jornalista boliviana, responsável pela companhia independente El Masticadero, fundada em 2005. A artista também dirige a Oficina Permanente de Teatro da Universidade Privada Boliviana (UPB), em Cochabamba, e possui textos publicados em países como Bolívia, Espanha, Argentina e Cuba.

A parceria entre as artistas fortalece uma perspectiva de criação teatral latino-americana que valoriza narrativas próprias, experiências de mulheres negras e referências culturais que ultrapassam os modelos tradicionalmente associados ao teatro europeu.

Teatro nas periferias: democratização do acesso e valorização dos territórios

A escolha dos três espaços que recebem as apresentações está diretamente relacionada à proposta do projeto de ampliar o acesso à produção teatral e reconhecer as periferias como territórios de criação, circulação artística e produção de conhecimento.

A temporada começa na quinta-feira, 22 de outubro, às 19h30, na sede do Instituto Justina, no Setor Marista Sul. Na sexta-feira, 23 de outubro, às 14h, o espetáculo chega ao CENFI, na Cidade Vera Cruz. O encerramento será no sábado, 24 de outubro, às 19h30, no Ponto de Cultura Rosa dos Ventos.

A circulação também dialoga com a trajetória do Instituto Justina, organização que desenvolve, desde 2015, atividades de formação, pesquisa, intercâmbio e circulação artística, especialmente em territórios comunitários de Aparecida de Goiânia.

Reconhecido como Ponto de Cultura em 2019, o Instituto teve sua metodologia “Dramaturgias Emergentes” reconhecida como Tecnologia Social pelo Banco Ibero-americano de Saberes, em 2022. Em 2026, passou à condição de Pontão de Cultura.

Ao levar “1888” a espaços comunitários, o projeto reforça a importância de descentralizar a programação cultural e aproximar a produção artística de públicos que nem sempre têm acesso aos circuitos tradicionais de teatro.

Dramaturgia também será publicada em livro

Além das apresentações, a Temporada 1888 – Dramaturgia Afro-Latinoamericana contempla a publicação do texto do espetáculo em formato de livro, com distribuição gratuita para escolas, bibliotecas e Pontos de Cultura.  A iniciativa busca ampliar o alcance da obra, permitindo que a dramaturgia continue circulando para além dos palcos e seja utilizada como instrumento de leitura, estudo e reflexão.

SERVIÇO:

Temporada 1888 – Dramaturgia Afro-Latinoamericana

Apresentações gratuitas em Aparecida de Goiânia

22 de outubro (quinta-feira) – 19h30

Local: Sede do Instituto Justina

Endereço: Avenida Diamante Azul, Quadra 37, Lote 01, Setor Marista Sul, Aparecida de Goiânia.

23 de outubro (sexta-feira) – 14h

Local: CENFI

Endereço: Rua H-125, nº 257, Cidade Vera Cruz, Aparecida de Goiânia.

24 de outubro (sábado) – 19h30

Local: Ponto de Cultura Rosa dos Ventos

Endereço: Avenida Edilberto Veiga Jardim, 846–926, Rosa dos Ventos, Aparecida de Goiânia.

Classificação indicativa: 18 anos.

Fotos para divulgação: Acessar fotografias do espetáculo.

Mais informações: https://www.instagram.com/institutojustina/ 

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