Renata Santos
Ancestralidade e festejo popular em torno da cultura afro-brasileira marcam o projeto Dona Mulambo: Tradição Arte e Fé, dia 4 de outubro, em Águas Lindas (GO). A programação conta com exposição de vestimentas tradicionais dos Rituais da Pomba Gira e, como contrapartida social, uma palestra sobre patrimônio imaterial afro-brasileiro e oficina de ilustração sobre mulheres guias espirituais (Pomba Gira e Maria Padilha dentre outras). A festa gratuita traz apresentações musicais e de dança, além dos atos de devoção e cantigas que movimentam o palco da festa – um terreiro de candomblé em Águas Lindas de Goiás (o Ilê AsèOmiGbatoJegede).
A empreitada, realizada há mais de uma década, tem os preparativos dos festejos iniciados um mês antes, num processo que abrange esforços não apenas dos seus idealizadores, mas da comunidade local. Apoiado pelo edital Festas Tradicionais e Populares em Goiás, da Lei Goyazes, o projeto celebra a importância de preservar as tradições e os laços comunitários formados pelo viés da crença, da afetividade e do culto num trabalho de valorização do legado das matrizes africanas. Para Daniela Braga, arquiteta pela UEG, artista visual formada pela FAV/UFG que finaliza mestrado na UnB, a aprovação do seu projeto contribui para a preservação de um patrimônio imaterial que vai muito além do apoio a tradições como essa. Ela enfatiza que, por meio dessa ação cultural é possível divulgar o conhecimento sobre Dona Mulambo e os festejos de Pombagira de modo que ocorra um “fortalecimento da oralidade ancestral em diálogo com as novas gerações”.
Ela conclui: “Nestes tempos de intolerância religiosa, essa festa e a sua programação, como a oficina e a exposição do vestuário que representa o universo retratado, ainda cumprem o papel de mostrar que o Brasil é um Estado laico e que todas as religiões e crenças merecem respeito”, observa. Daniela Braga acrescenta que sua oficina no evento proporcionará aos participantes uma busca de compreensão da representação das mulheres negras na arte e na cultura afro-brasileira. “Ao trazer a temática das pombas giras, meu objetivo é desmistificar as crenças equivocadas sobre essas figuras afro-brasileiras, que possuem grande importância cultural”, explica.
Ela diz que as pombas giras carregam o estigma social causado simbolicamente pelo peso do patriarcado, por terem sido mulheres que buscaram por independência e liberdade, seja de expressão ou de seus próprios corpos. O termo ‘pomba-gira” é usado para designar diferentes figuras espirituais, como Dona Mulambo, Maria Padilha e Sete Saias. “Essas figuras têm a função de ajudar na superação de obstáculos dos consulentes principalmente na tomada de consciência do poder da autonomia. “Elas atuam como conselheiras e líderes matriarcas, cujo papel é orientar as pessoas a se manterem fiéis ao seu destino.
Mulheres – O Babalorisá Henrique Cortes, que também é arquiteto pela Unip, é o estilista que criou todas as roupas da exposição de trajes tradicionais do evento. Ele ressalta que, anualmente, com esse evento “o terreiro literalmente vive e celebra essa festa porque ela é uma oportunidade de poder mostrar à comunidade a realidade de conceitos do candomblé e da umbanda como o Exu e a Pomba Gira.“A gente mostra que essas entidades rimam com oportunidade de evolução dentro da espiritualidade. Desmistificamos sua aura demoníaca que, infelizmente, muita gente ainda acredita. O evento também contribui para evitar o apagamento histórico das manifestações de matriz africana, o que também combatemos com o nosso trabalho cotidiano no terreiro, agora reforçado por esse projeto cultural tão rico e necessário na atualidade.
O candomblé é voltado para um trabalho com as forças da natureza, e o desconhecimento disso leva a crenças irreais”, diz Henrique. Ele conta que a Pomba Gira tem toda uma simbologia e significados espirituais de um passado no qual essas mulheres eram escravas e guerreiras com saberes de ervas medicinais, cura e liderança em suas épocas. A palestra Patrimônio Imaterial: Narrativa e Oralidade Ancestral, evento de contrapartida social do projeto cultural, será uma oportunidade para compartilhar histórias e mitos que envolvem a simbologia dessas figuras lendárias da umbanda e do candomblé, incluindo cantigas, danças e oferendas. “A oficina de ilustração é outro momento de envolvimento da comunidade. O terreiro, reconhecido como espaço legítimo de cultura e de tradição, estimula o fortalecimento da identidade negra e aproxima a comunidade externa de práticas culturais afro-brasileiras”, reforça.
A Iyalorisá Layane de Osun comemora a aprovação do projeto Dona Mulambo. Ela enfatiza que não quer que as pessoas enxerguem lá como um espaço apenas espiritual, mas contemplem a faceta cultural também do terreiro. “Estamos trazendo esses projetos para fortalecer a casa e esperamos que com eles a comunidade venha para conhecer seus festejos e também as ações do calendário anual e percebam que não se trata, como muita gente ainda pensa, que o candomblé está ligado a coisas negativas como macumba e feitiçaria. “Não é nada disso, a gente louca o sagrado e nossos ancestrais. As pessoas que vêm para o terreiro, por meio dos nossos projetos, podem aprender a tocar atabaque, a cozinhar, costurar e outras atividades que são cultura brasileira”, destaca. Ela lembra que o primeiro projeto foi em torno de comida típica, como o acarajé, alimento sagrado que muitas mulheres aprenderam a fazer e, com o dinheiro da venda dessa comida, fazem dessa renda sustento dos seus filhos.
Festa Dona Mulambo: Tradição Arte e Fé
Dia 4/10 das 20 às 23h Local: Terreiro Ilê OmiGbatoJegede(Rua Mato Grosso, Quadra 18, Jardim Guaíra, Águas Lindas-GO, @ase_gbato)
Exposição da Indumentária da Pomba Gira: De 4/10 a 7/10
Palestra Patrimônio Imaterial: a Narrativa da Oralidade Ancestral: Dia 6/3/2026
Oficina de Ilustração Guias Espirituais da Umbanda e do Candomblé: Dia 14/8/2026
ENTRADA FRANCA