Lamento decepcioná-los, as linhas abaixo não são lenha na fogueira defenestradas a nenhum partido.  São linhas de raciocínio de um trabalhador bom partido. Bom, partindo do que diz o ditado: “O trabalho dignifica o homem.” Despertando toda manhã sob o otimismo do dito: “Deus ajuda quem cedo madruga.”  Estou de pé! avante! 8 horas por dia, 6 dias por semana, 4 semanas por mês.
Ao meu lado, minha fiel escudeira a bomba de gasolina, me transformando em HOMEM BOMBA! No meu posto, disposto, sorriso no rosto, enquanto ouço que vão aumentar imposto, sem direito a dizer não, pego as chaves na mão e quase sinto o gosto de como seria não ter que devolve-las depois de encher o tanque.

Abastecendo abastados, alimentando carros para me alimentar. 8 horas por dia, 80 carros por hora e depois o que me resta é ir embora de ônibus. Afinal “Casa de ferreiro, espeto de pau.”  E se eu tivesse seguido ao pé da letra, e me tornasse um ferreiro ao invés de frentista? pelo menos não teria que ouvir 80 vezes “Moço, 10 reais de álcool” logo depois: “Subiu de novo?”  Eu também subi de novo no mesmo par de sapatos, toda manhã, o mesmo beijo inanimado em meu par, enquanto me pego rezando para que o mês não acabe em número ímpar. Não é superstição. Meses de 31 dias, exigem mais 31 moedas de 10 centavos ofertadas em um passaporte de obrigação que nós goianos, batizamos Sit Pass, e eu lá, lendo bocas delicadamente maquiadas com seus batons 25% me questionarem: “Onde o Brasil vai parar?” “Não sei o Brasil! Eu vou parar no último ponto antes do terminal!” Não entendeu a expressão “25%” para os batons? 25% do salário que me pagam. Quase o equivalente ao que descontam de mim, toda vez, todo mês. Sem aviso prévio, sem consentimento, sem direito de resposta.

Tipo o “flanelinha” que limpa seu vidro enquanto você espera o sinal abrir. Talvez seja assim, observando o método e a abordagem do “flanelinha” que o governo aprendeu a trabalhar.  Aprendizado mútuo, hoje, aprendi ouvindo um homem caucasiano gritar ao celular: “OS MENORES ESTÃO CADA VEZ MAIS INFRATORES.” disse enquanto dirigia e infringia uma lei de transito. Entre um tanque e outro, uma indignação e outra, uma geração e outra, as práticas se assemelham. Mesmo com a placas de NÃO FUME, jovens, adultos e senhores exalam fumaça ao lado da bomba, mudando apenas o cheiro da fumaça que sai pela janela, enterrando ou potencializando o senso de humor de quem traga.

Nunca fui bom em matemática, mas conheço o peso dela como ninguém. 20 centavos a mais na placa de preço, tem o poder de mudar completamente a fisionomia, o comportamento e o tom de voz de um ser humano.  Tem o poder de me transformar em psicólogo. É a linha freudiana mais desconfortável do mundo. Me curvo diante de sua janela, sob o clima ameno do cerrado, e aquela fila de outros clientes para atender, ou melhor outros pacientes para tratar.

Também sinto nas pernas esse aumento. 20 centavos, principalmente quando não os tenho no bolso e acaba o expediente. Ufa, cheguei!  Enquanto tiro o sapato do pé, a TV fala sobre os bilhões das refinarias de petróleo, acho que refinarias advém de pessoas refinadas. Ou não, talvez seja os bilhões em comum, e eu rapaz comum, de 1 metro e 85 de altura, vou dormir me sentindo um anão, afinal li no adesivo do vidro do último carro que abasteci: “Você é do tamanho da sua fé.”

foto pngBruno da Costa –  Estudante de Publicidade e Propaganda. CEO da Crieação