
Marilda Rodovalho (@relatosdeumcoracaobipolar)
Não tenho por hábito colher flores, muito menos gostar de ganhá-las em buquês. A mim parecem belezas mortas, pois, uma vez arrancadas começam a definhar, a despeito do que possamos fazer para manter sua beleza. Em seu lugar, seja em roseira, arbusto, ou árvore, poderão viver seu ciclo até o fim, em paz, servindo de banquete a beija-flores, abelhas e outros insetos, assim perpetuando a vida.
A primeira vez que me atentei para esse triste fato foi aos doze anos, na então sexta série. Nossa professora de português havia feito uma cirurgia e por isso estava afastada; como sabíamos seu endereço, resolvemos lhe fazer uma visita e, após a aula, lá foi a turma toda, perto de trinta adolescentes, andando em algazarra pelas ruas do Setor Bueno para surpreender nossa querida professora.
No caminho, nos deparamos com uma casa e um lindo e bem cuidado jardim, com roseiras vermelhas, cheias de belas rosas. Não sei se pela inconsciência da idade, ou pelo afã de agradar a professora, ou mesmo pelo prazer da bagunça e do mal feito, o fato é que de repente resolvemos pegar algumas rosas e levar conosco. O resultado foi desastroso; acabamos por arrancar uma das roseiras e então saímos correndo como loucos pela rua.
Mas aquilo me fez pensar, não naquele momento, é claro, depois, com a cabeça no travesseiro, quando a temida “juíza”, minha consciência, vinha me cobrar todas as “bobagens” do dia. Depois de muito me condoer pela dona daquele jardim, parei para pensar nas pobres rosas, arrancadas e mortas por nós. E decidi que se fosse para ganhar flores, que fossem vasos, dos quais eu poderia cuidar e continuariam a viver.
O que devo confessar, por um tempo também não adiantou muito, pois minha mente sempre cheia de “coisas”, minha “vitrola quebrada”, como eu chamava, acabava por me distrair daquilo que não pudesse interagir comigo de uma forma mais pessoal, como minha gatinha, agora, por exemplo, miando insistentemente em meus ouvidos; e eu acabava me esquecendo das pobres plantas, sem água por semanas, até secarem à mingua, mais um motivo de culpa e tortura.
Percebi que era melhor deixar as plantas longe de mim; não estava pronta para cuidar de seres tão especiais, tão delicados e silenciosos. Melhor ficar com os animais e mesmo assim com aqueles que latem alto ou miam estridentes em meus ouvidos quando passa da hora de comerem, ou quando querem algo. As rosas, prefiro admirá-las em seus lugares, lindas e perfumadas, como no parque em frente onde moro, repleto de árvores que se enchem de flores de cores variadas, rosa maravilha, brancas, lilás, amarelas e vermelhas, cada uma com seu perfume particular, atraindo abelhas e beija-flores.
É um dos meus espetáculos preferidos durante meu passeio diário com minhas meninas, como chamo minhas cachorras. Às vezes temos a companhia de Manu, minha sobrinha neta de nove anos, a quem ensinei que não se deve arrancar as flores, pois elas ficam mais bonitas nas árvores, onde podem ser apreciadas por todos e assim alegrarem mais pessoas. A pequena já aprendeu que a natureza não nos pertence, mas que está ali para todos, para ser vista, admirada e cuidada. Que é um presente de Deus e como tal merece respeito.
Outro dia, achei graça de sua sabedoria infantil quando me disse: “Não precisamos arrancar as flores, não é, Didi? Podemos tirar uma foto delas, então vamos guardar para sempre.” Pois é, Manu. Basta fotografar para guardar para sempre as flores conosco. Não precisamos arrancá-las, pois assim as matamos.
E foi o que vi essa manhã. Hoje, enquanto passeava com minhas meninas, vi com tristeza que uma das árvores cobertas de flores, estava quebrada ao meio; sua galha jogada ao chão ainda com as flores amarelas frescas, o que mostrava que o criminoso, humano com certeza – já que ali não há grandes animais e não houve ventos ou tempestades que pudessem ter feito aquilo – havia estado ali há pouco. Fiz o que não costumo fazer, colhi do galho quebrado uma flor. Queria fotografá-la, enquanto ainda trazia a ilusão da vida que lhe fora roubada.
Não poderei dá-la à minha pequena Manu, com certeza essa flor não chegará até o fim da semana, estará murcha bem antes disso e irá para o lixo. Mas guardarei sua foto, a lembrança de sua beleza, que não é nem de longe o que ela era no total da sua árvore, singela, delicada, mimosa flor amarela.