
MUSH 062 / Talita Prudente
Em 23 de fevereiro, banda goiana lança primeiro disco após 10 anos de trajetória e reafirma a potência das religiões de matriz africana. O pré-save já está disponível nas principais plataformas
Com presença nos palcos consolidada e sonoridade marcada por performances cênicas, percussão vibrante e guitarras em camadas distorcidas, a banda goiana Terra Cabula (@terracabula) lança, no dia 23 de fevereiro, seu primeiro álbum: ARREDA. O disco chega às plataformas de música e ao YouTube como um marco simbólico para o grupo e para a cena musical independente de Goiás pois, além de ser um registro inaugural, se afirma como manifesto coletivo que evoca a ancestralidade na cultura popular brasileira.
O álbum nasce da urgência de materializar o que Terra Cabula já vinha expressando. Em 8 músicas autorais, os músicos Vinicius Bolivar, Ingrid Lobo, Lene Black e Emanuel Mastrella, trazem suas inquietações, gritam preconceitos sofridos e saúdam as religiões de terreiro. Entre os ritmos entoados junto com intervenções eletrônicas estão jongo, maracatu, coco, samba, baião e ijexá.
Ainda sobre o conceito de Arreda, o vocalista e compositor Vinicius Bolivar afirma que o novo trabalho é ato de reivindicação contra diversos tipos de opressão. “É palavra de ordem para quem quer nos oprimir: aqui não. Não mais. Não passarão sobre nossos corpos, nossa fé, nossa arte, nossa história. É o pedido de basta ao racismo religioso, à homofobia, ao feminicídio, ao machismo, ao racismo e à misoginia”, destaca o artista.
Travessia sonora
Ao longo das faixas, ARREDA constrói uma narrativa que se desenvolve como travessia espiritual e existencial. Trata-se de um percurso emocional que vai da tentativa de libertação ao reencontro com a própria força ancestral.
A faixa que abre o disco, “Na Calada”, dá o tom da jornada a partir da perspectiva da fuga: sair dos aprisionamentos, romper silêncios e anunciar, ainda que discretamente, a possibilidade de esperança. Logo depois, “Telebê” aparece como confronto, trazendo à tona a potência da mandinga e das forças espirituais que sustentam o caminhar.
Então a narrativa avança com “Demanda”, canção que evidencia quedas e embates que testam a permanência do ser. Em seguida, “Mulher Demônia” surge como renascimento, símbolo de transformação e reconstrução depois do caos.
“Ewá” revela outra camada do processo: mais sutil, misteriosa e sensível. Mas o caminho não se encerra na delicadeza. Em “Pisei na Pedra”, o álbum ganha densidade, evocando a força ancestral e o peso da caminhada, como se a própria terra falasse, pedisse socorro e devolvesse a memória.
O fechamento se dá com “Guiã”, que carrega a consciência do rompimento definitivo com aprisionamentos, e finalmente com “Foi na Beira do Mar”, faixa que encerra o disco reafirmando a esperança: apesar das travessias, existe proteção.
Manifesto
Em um país onde as religiões de matriz africana seguem sendo alvo de intolerância e apagamento, ARREDA assume a missão de reverenciar e afirmar o sagrado. A banda canta o que vive, o que observa e o que carrega no corpo e na história. “É nesse contexto de luta que o Terra Cabula canta resistências e embrenha-se no solo fertilizado com sangue e suor do povo preto”, afirma Lene Black.
O novo disco abre caminhos e convida a sociedade a apreciar a cultura ancestral e repensar papéis, falas, estigmas e violências estruturais. Aqui, Terra Cabula reafirma que a música popular brasileira carrega, em sua raiz, o batuque contagiante e a memória de um povo que resistiu e ainda resiste.
Terra Cabula
Nascido em 2015 em Goiânia, o Terra Cabula é formado pelo vocalista e compositor Vinicius Bolivar, pela guitarrista e vocalista Ingrid Lobo, pelo contrabaixista e compositor Emanuel Mastrella e pela percussionista Lene Black. O grupo já participou de diversos festivais de música regionais e foi premiado com o 1º lugar no Festival Canta Cerrado 2016 com a música Mulher Demônia, e com o 2º lugar na edição de 2017 do Festival, com a música Vários Lagos. O nome da banda remete à fusão dos elementos sincréticos que marcam a formação da indentidade cultural e religiosa brasileira: cabula se refere aos volteios em que os negros escravizados encontravam para exercer sua cultura e crença no Brasil diante das barreiras da colonização cristã.
Serviço
Lançamento do álbum: ARREDA – Terra Cabula
Data: 23 de fevereiro
Disponível em: plataformas de streaming e YouTube
Pré-save: https://tratore.ffm.to/