Pular para o conteúdo principal

Patricia Finotti

(crédito: Estoriatos Entretenimento)

Talita Prudente 

Dirigido por Victor Vinícius e gravado por estudantes, filme conquista júri jovem do festival Filmare la Storia e amplia o debate sobre educação, desigualdade e juventude 

 

Um curta-metragem produzido de forma independente, com celulares, liberdade criativa e muita escuta. Todos os Sonhos do Mundo, dirigido pelo goiano Victor Vinícius e produzido pela Estoriatos Entretenimento, foi premiado na 22ª edição do festival italiano Filmare la Storia. Gravado com a participação de oito estudantes do 3º ano do Ensino Médio — quatro de uma escola pública e quatro de uma escola particular de Aparecida de Goiânia — o filme é um retrato sincero de jovens que, no último ano da escola, registraram com seus próprios aparelhos a rotina diária, os dilemas e os sonhos que os atravessam nessa fase, revelando angústias, esperanças e abismos que marcam o cotidiano escolar e moldam perspectivas de futuro.

 

Confira o trailer – https://www.youtube.com/watch?v=Sp51ZgvD5Dg&feature=youtu.be

 

“Quando a gente exibiu o filme nas escolas, percebi que os alunos se identificaram profundamente. Eles entenderam que não estão sozinhos nesse caos que é a transição pós-ensino médio”, relata o diretor, que também assina o roteiro e a montagem do filme. A escolha por entregar as filmagens aos próprios estudantes, segundo Victor, foi estética, política e ética. “Não queria invadir o espaço deles com uma equipe. Queria que mostrassem suas vidas de forma livre, íntima. Isso trouxe uma verdade que nenhum enquadramento técnico poderia capturar”, observa o diretor.

 

Essa verdade pulsa nos relatos de participantes como Sara Dheyne, então estudante de escola pública, que hoje sonha em cursar farmácia e abrir um estúdio de maquiagem. “Eu consegui mostrar um pouco de mim e dos meus amigos. Gravei nossos momentos bons e ruins e o que eu mais gostei foi poder mostrar como eu realmente sou. Esse projeto me ensinou a viver o agora e guardar as lembranças com carinho”, lembra Sara ao relatar sua experiência inédita com cinema.

 

Já Verônica dos Santos, aluna da escola particular, encontrou no projeto uma forma de se reconectar consigo mesma em meio à luta contra depressão e ansiedade. “Eu sou muito tímida. Falar na frente da câmera foi difícil, mas me ajudou a me expressar. Ver que outros alunos também passavam pelos mesmos dilemas me fez sentir menos sozinha”, conta. A jovem diz que aprendeu a  confiar mais em si e não ter medo de pedir ajuda. “Hoje eu sei o quanto nunca desabafar ou demonstrar fraqueza te sobrecarrega”, relata.

 

Essa pluralidade de vozes é o que faz de Todos os Sonhos do Mundo um filme de alta potência educativa e política. Ao revelar sem filtros o cotidiano de  jovens goianos, o curta também escancara desigualdades estruturais: de um lado, estudantes que enfrentam a falta de infraestrutura e o desafio de estudar e trabalhar; de outro, adolescentes com acesso a recursos, mas igualmente pressionados por expectativas e adoecimentos emocionais.

 

“O filme mostra que os sonhos existem em todos os lugares, mas nem sempre as condições para realizá-los são as mesmas”, resume Victor Vinícius. Essa tensão aparece com força nos depoimentos: “Não vim de berço de ouro. Tenho que lutar todos os dias.”, “Como vou estudar se não tenho cabeça?”, “Colocar comida na mesa é mais importante do que aprender Bhaskara.” são algumas das falas emblemáticas do documentário. 

 

Exibido no festival italiano dedicado a obras audiovisuais com foco em história e sociedade, o filme goiano se destacou por seu valor didático e sua abordagem contemporânea. A premiação, nas palavras do diretor, foi uma surpresa. “A seleção já era um prêmio. Ver que um filme feito com celular, de forma tão independente, foi reconhecido lá fora, mostra que ele fala de algo que ultrapassa fronteiras. Fala de todos os sonhos do mundo, como o próprio título diz”, conta.

 

Para a produtora Estoriatos, essa é a primeira premiação internacional. Para o cinema goiano, um sinal claro de vigor criativo e relevância social. “Fazer cinema em Goiás é difícil. Mas quando a gente consegue contar nossas histórias e ser ouvido,  isso nos dá força pra continuar”, enfatiza Victor Vinícius. Todos os Sonhos do Mundo é um filme realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (SECULT-GO).

 

Educação em pauta

O impulso para retratar a educação em Todos os Sonhos do Mundo tem raízes pessoais e afetivas para Victor Vinicius. Filho de professora da rede pública, ele cresceu acompanhando de perto os desafios enfrentados por educadores e estudantes. “Falar sobre educação sempre me interessou porque, pra mim, é a base da nossa sociedade é o motor de transformação de um país”, ressalta o diretor.

 

Ao refletir sobre os caminhos da educação pública no Brasil, Victor destaca que é urgente fortalecer a estrutura do ensino com base na qualidade e não apenas em números e metas que, na prática, segundo ele,  pouco representam a realidade escolar. Também defende a valorização efetiva da profissão docente, não apenas no aspecto financeiro, mas em reconhecimento e condições dignas de trabalho. “Os professores são sobrecarregados de diferentes formas e cobrados por um ideal de educação que não existe. Precisamos olhar com mais humanidade e verdade para esse sistema”, finaliza.

 

A construção de Todos os Sonhos do Mundo começou com visitas às escolas – Colégio Estadual Professor José Lopes e  Colégio Delos – e a apresentação da proposta aos alunos, seguida por um processo de seleção a partir de formulários preenchidos por quem se interessou em participar. Victor Vinícius buscou diversidade entre os estudantes escolhidos, dentro das possibilidades, e conduziu três encontros presenciais para orientar os jovens sobre o uso do celular, formatos de gravação e cuidados com o áudio. O acompanhamento, no entanto, foi constante também de forma online, garantindo apoio durante toda a jornada.

Sobre a produtora

A Estoriatos, produtora do curta “Todos os sonhos do mundo”, foi criada por Victor Vinícius e Stefanny Pina e, apesar de recente, já soma uma produção consistente no audiovisual. Com três anos de existência, a produtora realizou cinco curtas-metragens e atualmente desenvolve projetos de longas e séries cujos roteiros foram aprovados em editais de desenvolvimento.

 

Entre os filmes produzidos, destacam-se a ficção “Sufoco”, selecionada para o 11° DIGO – Festival Internacional da Diversidade Sexual e de Gênero e para o CIFF — II Colonia del Sacramento International Film Festival, no Uruguai, e a animação “As cores mágicas”, com seleções no 22º Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI) e no 7º Palm Springs Animation Festival, nos EUA. A distribuição dos filmes é feita em parceria com a Distriba Filmes, distribuidora 100% goiana. 

 

A Estoriatos também planeja realizar, até o fim do segundo semestre, uma sessão especial de exibição de seus filmes. Embora jovem, a produtora nasce da experiência acumulada por seus fundadores, que atuam há anos no audiovisual goiano, em funções como roteiro, direção, atuação e produção.


Descubra mais sobre Patricia Finotti

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.